quinta-feira





















a ver-te. a chávena caída no soalho.
deixas ficar a mancha, como se fosse
o derrame de uma laranja
o ar que cresce cada vez mais alto.
a luz lava-te a sombra. as cores
ficam mais lisas no lado aberto do teu sorriso.
são altíssimas as tardes
quando as contas à superfície
e pensas completos os dedos


por cima do sol.




Fotografia de Berenika.



quarta-feira




















deixada há muito
na distância do que podia.talvez.
espere. peça a árvore que abre em silêncio a noite.
morrerei do lado de fora? dizes
que não. que a luz
parece fogo
mas não queima as mãos quando deitadas e as
mergulhamos no centro pulmonar.
e há sempre a música. parece chorar. ouves?
não precisas pedir. acaba o teu café.
e se o fogo entrar? é por mim

que ficas?


Fotografia de Berenika.



terça-feira

coloquei a toalha de linho sobre a mesa. queres escutar o que escrevi?
amadureceram por dentro todas as estações. diz-me que sabes.

segunda-feira



















I
se respirares por mim
ensino-te a cantar.

II

ensinas-me a íris dos olhos. a pintura do sol?

III

hei-de construir-te uma casa com muitas janelas.
e o tempo dentro delas.

IV

se nos esquecermos.



Fotografia de Marília Campos.















As mãos dormem sentadas
ao relento da casa.
os dedos cansados recolhem escombros
luz nocturna
ao relento das árvores.

não adormeças esta noite.

A lua transpira tranquilidade.
mães esperando o seu rebento
de olhos em pranto
como se todas as coisas fossem criação
quando alguém chora.

mãos suspiram
reconstroem gestos
e o fogo surge
emergente.

não adormeças esta noite.

Quando no silêncio da árvores
a mãe chora
a intimidade das raízes em sufoco
surge poética
sentada
nos recantos da casa.


Fotografia de Lilya Corneli.



















São poucas as vezes
em que as luzes se vêem acesas.

Tudo parece estar morto.

Nas mãos abertas
dorme a divindade de uma flor. frágil
contorna o gesto de uma boca indizível
e as palavras demoradas
respiram o espanto aos poetas.

Os campos devolvem aos olhos
a frescura das paisagens
para que a frescura dos olhos
devolva as paisagens
aos campos.

Os campos serão sempre frescos
enquanto existirem olhos.
Ao olhar a paisagem
fixo-a
para que nunca a possa esquecer.

Tudo parece estar morto.

As vozes que cantam
quando por dentro as procuro e não as encontro
tentam acender as luzes.

Distantes. as palavras
em segredo
pousadas na pequenez das coisas simples
escutam o espanto dos poetas.

O gesto da flor
na divindade da boca
devolve aos olhos a paisagem dos campos.
encanto de dois lábios
no perfil da casa.


Fotografia de Ewa Brzoznska.

sexta-feira

há desertos por dizer.
esquecemo-nos tantas vezes dessa hora.

segunda-feira

I

a alegria que não me pertence.

II

nos meus olhos duas barcas
por eles medi a beleza do mundo.

III

deste lado. o destino
uma ponte de brancura frágil.

IV

lembras o aparecer de uma sombra nua pela casa
o culto de uma maré vasa.

V

entre nós dois. habito.

quinta-feira




















ouve o que diz a solidão do olhar
nenhuma sombra a ameaça.


Fotografia retirada de Berenika.

quarta-feira




















toco o medo e canto a carne que se agrava.
a seda não serve.
as águas não despem.
o masculino não dissolve.
é uma espécie de fogo. queima sempre o ouro.

enganam-se as palavras. as letras. as vogais
a humidade do tempo
a noite no corrimão da escada
a cidade.
as paredes que dilatam.


Fotografia de Berenika.

terça-feira

dá-me a fuga dos cães que ladram
esta noite. o vinho quente, o sal que queima a erva
a força que ergue as grades. não digas
o escudo do mundo. morrerei no teu silêncio
e no silêncio do amor.
é noite na escuridão do céu. ouço o apelo da noite como se uma invocação ao meu corpo gerasse o pânico ao pensar as minhas mãos. em ti, é já noite, na escuridão do teu corpo?
na alegria breve dos meus olhos recebo os braços teus em nome da terra.
na tua face - as estrelas. escrevo. abro as janelas para a noite. escrevo mais ainda. é rápida a sombra. essa sombra que condeno ao absurdo que é ser morte e esquecimento.




Dedicado a Vergílio Ferreira, para sempre
são tantas as coisas
que me dizem tudo
que me roubam tudo
que me deixam una.

quarta-feira

Chamo por ti,

para que me leves a dançar

a tecer um sopro no casulo da noite.

terça-feira

as palavras, às vezes, não acrescentam.

domingo

não basta morrer para ser flor.
não basta morrer para conhecer deus e acreditar no beijo, não nos chega apenas amar a terra excessiva, ser arrastada pela paisagem que os meus seios denunciam.
o que resta depois de uma mentira lógica de palavras?
explica-me a lógica das palavras.
mostra-me a raiz da flor.

segunda-feira

coloco os dedos na frase,
a jarra no centro da mesa, a labareda no silêncio
da cor. o branco. sei muito pouco
do mundo, de mim e desta noite.
encontro-me perto da verdade e longe do tempo.

quinta-feira

fecha os olhos. Fecha-os tranquilamente.
deixa que os teus olhos se fechem
para que eu os possa docemente beijar.


envolve as minhas mãos nas tuas
que eu quero minhas
esta noite.não chores.

não chores amor.
são sempre minhas as tuas lágrimas.
sempre.

quarta-feira

a lua
tecida à boca da noite
ao ouvido do homem mudo:
beija-lhe os lábios.
o homem sente
aves nos ombros, braços
em nudez nos seios arredondados
de mamilos frescos na terra.
sementes cantam na palma da mão
rosas musguentas
sexos feridos
ânsias de um outro beijo.

a lua tecida à boca do homem,
ao ouvido da noite muda:
segreda um olhar e dos lábios
soam aves.