segunda-feira

as pedras são duras: magoam se as apertamos com força
nas mãos. o que quiseres mostrar dizias, parece vento e
é moldável com os lábios, quiçá o mar ou um pedaço de papel
para somarmos a distância entre dois corações,os meses
que faltam no meu corpo. porque faltam sempre meses aos corpos
e as coisas mais tristes adoecem a seu tempo. escrevo
mais uma vez as coisas mais tristes, lembro-as.à entrada
das vogais abertas, redondas, estão pequenas estruturas
feitas de laços e torrões de terra.

sábado

a mulher é pele que toca pela
primeira vez. é película. lamparina
de petróleo no mapa da casa. sei-a
pela forma como cheira o tecido
decifra o nó e retira o laço.
pelo gesto com que afasta
a espuma dos talheres
e abraça.

sexta-feira

existia um fogão e a suportá-lo era uma pedra
de mármore, quase sempre bem limpa. mesmo
por baixo havia um lugar pequenino e escuro com
duas portas desalinhadas, difíceis de fechar. era ali
que estava a caixa, guardada, religiosamente, a caixa
de bolachas: as campechanas que a avó aurora nos ofereceu
naquele natal não recordo agora o ano
ao certo. lembro-me que não sorri quando
fui receber os tios à porta, nem à prima lúcia que
com a boca ainda lambuzada de iogurte e açúcar perguntava
à mãe se a deixava ir brincar
um bocadinho. eu queria que viesses
depressa e convencesses o cão a não ladrar
de cada vez que eu passava com os meus
brinquedos em frente do tanque da tua
mãe. ao certo, só havia a parede e o estendal
as molas enfraquecidas pela chuva e eu gostava
do frio das tuas mãos.

segunda-feira

as lâmpadas são inúteis
no teu corpo. a metáfora
de um século, dizemos: ainda
não vimos estrelas que cercassem
todas as casas.

ao daniel,
de uma outra janela

a lata estava ali mesmo
à espera que o pedro corresse
um bocadinho e ganhasse coragem
para a chutar. não é preciso muita
força – gritava a susana – que observava
a agitação dos pés e dava umas dicas – mais
à direita, vai, vai, é agora, eh pá chuta na bola – dizia
o daniel do outro lado da rua. eu agora
lembro-o e não sei por quanto tempo
ficaremos assim parados. no rosto dele parecia
que as ruas não custavam a subir
mesmo quando dobrava e comprimia à pressa
a sebenta no bolso de trás das calças e
adiantava o passo, a respiração. embaciava-se o vidro
na janela do menino do 2.º esquerdo, mesmo ali
a olhar para nós e a contar o tempo que demoraria
o pai da teresa a acomodar a bagagem dentro
do automóvel.

domingo

o homem demorava algum tempo
a apertar os botões todos da camisa. ele
queixava-se de uma página, a 57, agora relida
com urgência, dos pequenos detalhes do rosto
se lá tivessemos ficado a atirar objectos
para o fundo das arcas, se tivessemos compreendido
a textura nos olhos e a notícia. naquela casa
a mulher era mais rápida a sacudir as sombras
e a bater com força o tapete da rua
à janela. eu se os fechava e tinha medo
era porque imaginava o desequilíbrio de um prego
na parede. as avós encostadas e em fila
muito cansadas e à espera
pediam a deus o último suspiro
que ele viesse e as cegasse.

quinta-feira


















diz-me o mistério das árvores
quando calam. da realidade das fontes
não precisas, sei já a catástrofe
nos meus olhos.


Fotografia de Katia Chausheva.

quarta-feira

ainda há pouco confundia a geografia do rio
com a função de um pequeno electrodoméstico.
de cada vez que digo: a terra fica mais escura ou
guarda bem o segredo e para sempre essa caixa, o frio
de uma taça qualquer aparece e logo o comparo a uma lanterna
de aço, ao movimento dos ombros quando subimos a rua. ainda há botões
dentro dos frascos, ferrugem e humidade nas linhas, cascas
de laranja que colecciono secas e costuro a apertá-las muito
no forro, na metade cinzenta do teu casaco. ainda há pouco
dizia: os estilhaços parecem redondos, quando
queria ter dito: o reflexo nas árvores
as mãos de um deus.

terça-feira

naquela noite foram os pássaros
a lembrar o silêncio mais alto. no
teu rosto não soou nenhum alarme
em direcção ao sol. a chuva demorou
catorze dias a morrer no vidro
da garrafa, a encontrar a outra
metade da luz.
























chegamos a casa e trocamos pétalas por ossos.
as mãos ficam transparentes. ainda
trazemos a água dos peixes
na ponta dos dedos, destroços
de uma árvore na boca. é possível ver alguns
cadáveres do outro lado. o mesmo movimento
de sempre, digo: abre a porta, devagar.
sabemos pouco do animal morto
da sua cabeça e pescoço húmido a desaparecer
na terra. do intervalo da nuvem a queimar
a matéria dos objectos.

Fotografia de Velislava.

domingo

há-de chegar o tempo antigo do fogo.
seremos todos o mesmo líquido.
a unidade demasiado pequena para o tamanho do ar.
há-de chegar a distância ainda.
e o mais próximo será calarmo-nos.

sábado

























há uma mulher de luto em cada escada
de um prédio. elas sabem da existência
dos braços. dentro dos pulmões conhecem
a contrariedade das coisas que se fragmentam.
se olhares o chão, verás a luz que falta? dizem
algumas que as sombras tremem no casulo dos alvéolos.
que são as vizinhas a queimar na pele o que não se vê
quando regressam a casa dos filhos.
o silêncio na bissectriz de um arco? dizem algumas
que se pudessem ficar ali a distinguir o pó
da corda mudariam o instante
de um astro. elas sabem da existência
dos braços, dentro parece-lhes que tudo morre
com urgência.


Fotografia de Velislava.

quinta-feira

foi precisamente hoje que voltei ao mesmo lugar.
havia a mão aberta e a ferida seca
duas colunas de vapor quente
ao meio do espelho.
junto ao portão, quando partes? e aproximei-me
um pouco dos olhos, da respiração que fica
quando tropeças numa pedra e sorris
ou mesmo quando sobes a rua
e vês o luto das pequenas margens.
reconstróis-me o canto do lábio? e eu inspirava
de um lado ao outro a esquadria
do tejo, o golpe e os segundos
todos das tardes, o ar da tua boca
e as fissuras ardidas da madeira.
foi precisamente hoje que voltei.
a luz repetiu-se dentro dos mesmos objectos.
os dedos alinhados a apontar para cima
quase tudo a entrar sem esforço.
deixei que fosses a gordura no vidro
o caroço polido de uma cereja.

quarta-feira


























às vezes sento-me a olhar o chão
a ver as paredes azuis, a contar o tempo
a lembrar o sangue nos telhados e as ruas onde nos cruzamos.
fico apenas a enrolar um fio do meu cabelo à volta
do dedo mindinho e a pensar, um triângulo
na direcção do lugar onde devo morrer.
os traços imitam as estações.



fotografia de Gundega Dege.

sexta-feira

1,2 e 3.



















explicas-me a regra do jogo?
saltamos os dois do segundo degrau
para um outro mais abaixo
o quarto degrau, aquele ali, apontas.
dizes que ele é branco e que podemos
sorrir se lá chegarmos
ao mesmo tempo.


fotografia de susana miguel.

quarta-feira

é mesmo verdade? ela disse-me que sim,
que tinha visto um coração branco
a crescer num vaso azul e que no fundo
do vaso havia buraquinhos redondos
que o deixavam respirar sem nós sabermos.
ela repetiu que não estava a mentir
que era verdade, o ar entrava mesmo.
depois disto, não me quis contar mais nada
foi buscar a caixinha dos lápis
e sem que eu a ouvisse respirar começou
por medir o espaço entre as flores e parecia-me
que delas recolhia a luz ao fim da tarde
quando de vez em quando era a sua mão que subia
a afastar a franjinha do cabelo.
já está! tu não acreditas, pois não? mas é verdade
as flores é que não estavam lá
fui eu que as desenhei
para o coração não ficar triste.

domingo

geometria de um mundo pequenino

deixavas escorrer um pouco de água para dentro
de uma panela de alumínio. depois chamavas-me: filha
e ajeitavas a querer afundá-lo muito no útero
o teu vestido de pano. a água aguardava a velocidade da fervura
eu pousava as canecas de barro no tabuleiro, imaginava a geometria
de um mundo pequenino, calculava alto a tabuada do sete
e às vezes eu sabia que tu choravas e as nossas mãos
pareciam quase circulares quando víamos os meses a desaparecer na janela.
bebíamos o chá e dizias filha a querer muito os teus olhos estão cansados.
podemos esperar, mamã? e sentávamo-nos ainda com o quente
doce na boca a tentar entender a nudez das árvores.
depois à noite levantávamos as pernas ao alto e era uma casa de riso
quando debaixo dos lençóis nos descobríamos
duas meninas a crescer no tempo
e nos víamos adormecer.

quinta-feira

hoje brincamos na minha rua
pode ser? mas podes ser tu
a escolher a brincadeira. desenhamos
um coração num pedaço de terra
e nele o mundo?



















«O amor não é consolo, é luz»,
Simone Weil

e de vez em quando ela corria
tentava acertar na luz.

Fotografia de Berenika.

quarta-feira





















do amor sei as mães que cantam as coisas
mortas, a traqueia que desce a fechar-se vazia
a parte ardida. o fundo, uma gaveta e eu. e eu
a pensar o contorno do óleo no escuro
dos dedos. diz-me, sabes a rosa que transpira? lembro-a
quando ainda fechamos os olhos, os fingimos morrer para
depois nos amarmos muito. do amor, eu ouço portas
a gritar a espessura da noite, a madeira frágil
a encher a casa. um plátano de seda
a repetir-se na sombra.




Fotografia de Berenika.