há muito tempo que conversamos sobre as coisas
que não têm um lugar fixo nos móveis. a moldura é pequena
e mesmo assim, nela a imagem, a única a lembrar-nos
o apartamento e alguns objectos que aconteceram
naquele dia. às vezes, as plantas eram colocadas no chão
da varanda, perto da sombra causada pela roupa do estendal
ou ao lado da estante de pinho, no quadrado da sala.
temos de dar um lugar certo às coisas, um lugar onde
possam morrer para depois ficarem aqui, presas aos olhos
como uma luz sépia a confundir-nos o corpo todo e
a parte mais funda da terra. não havia mais nada
para dizer e tu inventavas as horas da tarde e o bairro
da tua rua era uma extensão de pessoas a esquecer
promessas e a olhar ao cimo, as duas torres da igreja.
naquela manhã pouco importaram as conversas. ela deixara
o quarto meticulosamente arrumado e a sopa ainda
ao lume. ninguém diria que teria sido possível vê-la
morrer assim, de pulsos cortados.
sábado
sexta-feira
o último estrondo foi o da porta
a bater com força uma vez mais
antes de se fechar completamente. eu ouvi
e não tenho dúvidas que perguntaram as horas
às senhoras da farmácia, eram oito
e vinte e já tinham ali passado outras
pessoas que desciam dos autocarros. ela ia
carregada com os sacos, pelo menos três
e levava a mala e a maldita alça descaída
a prender-lhe o braço direito disseram
as vizinhas: que desgraça a da irene e os bombeiros
que demoraram tanto tempo a retirar o corpo
do prédio e a esfregar o sangue das escadas.
a bater com força uma vez mais
antes de se fechar completamente. eu ouvi
e não tenho dúvidas que perguntaram as horas
às senhoras da farmácia, eram oito
e vinte e já tinham ali passado outras
pessoas que desciam dos autocarros. ela ia
carregada com os sacos, pelo menos três
e levava a mala e a maldita alça descaída
a prender-lhe o braço direito disseram
as vizinhas: que desgraça a da irene e os bombeiros
que demoraram tanto tempo a retirar o corpo
do prédio e a esfregar o sangue das escadas.
segunda-feira
lote: 108 3.º direito
tocavas três vezes lá em baixo e dizias para
eu descer e que não encostasse as mãos
à parede do poço do elevador. eu ainda gritava
da janela: está bem, mas bem que podias ser tu
a subir. eu abraçava-te, pensava que ias
morrer na manhã seguinte, no sábado ou
numa outra noite qualquer quando partisses
em direcção a outro caminho, talvez lisboa. eu não sabia
como contar-te que quando tocavas três vezes,
a possibilidade de ser maior a distância
entre nós, o teu quintal e as coisas mortas
que lá existiam, tudo isso diminuía. às vezes,
eu ouvia a dona guida a queixar-se: um dia, menina,
ainda cai por essa escada. a menina
era eu e um pouco de terra presa à sola
das botas, eu, e os meus braços de oito anos
a sair com pressa do prédio.
terça-feira
sexta-feira
quarta-feira
terça-feira
usado, pode ser um bocadinho
desse papel branco. é só para apontar
uma ideia: nas ruas as pessoas tropeçam menos
quando nos encontramos. as janelas
lá ao longe parecem agora tão pequeninas.
lembro-me de quando parámos a rir
respirámos por uns segundos sem nos olharmos
nos olhos e voltámos a rir e a redobrar o riso
até que demos as mãos, vimos a estrada.
uma ideia dessas, daquelas que demoram
a crescer nas sebentas e depois adoecem rápido
naquele dia pensei que estaríamos sós:
o barco sem ninguém, só o coração e o peso
dos sacos. depois os pés quase a tocar o rio.
mais tarde o eléctrico e o teu sorriso
ainda a arder nos meus olhos, a caminho de casa.
desse papel branco. é só para apontar
uma ideia: nas ruas as pessoas tropeçam menos
quando nos encontramos. as janelas
lá ao longe parecem agora tão pequeninas.
lembro-me de quando parámos a rir
respirámos por uns segundos sem nos olharmos
nos olhos e voltámos a rir e a redobrar o riso
até que demos as mãos, vimos a estrada.
uma ideia dessas, daquelas que demoram
a crescer nas sebentas e depois adoecem rápido
naquele dia pensei que estaríamos sós:
o barco sem ninguém, só o coração e o peso
dos sacos. depois os pés quase a tocar o rio.
mais tarde o eléctrico e o teu sorriso
ainda a arder nos meus olhos, a caminho de casa.
segunda-feira
as pedras são duras: magoam se as apertamos com força
nas mãos. o que quiseres mostrar dizias, parece vento e
é moldável com os lábios, quiçá o mar ou um pedaço de papel
para somarmos a distância entre dois corações,os meses
que faltam no meu corpo. porque faltam sempre meses aos corpos
e as coisas mais tristes adoecem a seu tempo. escrevo
mais uma vez as coisas mais tristes, lembro-as.à entrada
das vogais abertas, redondas, estão pequenas estruturas
feitas de laços e torrões de terra.
nas mãos. o que quiseres mostrar dizias, parece vento e
é moldável com os lábios, quiçá o mar ou um pedaço de papel
para somarmos a distância entre dois corações,os meses
que faltam no meu corpo. porque faltam sempre meses aos corpos
e as coisas mais tristes adoecem a seu tempo. escrevo
mais uma vez as coisas mais tristes, lembro-as.à entrada
das vogais abertas, redondas, estão pequenas estruturas
feitas de laços e torrões de terra.
sábado
sexta-feira
existia um fogão e a suportá-lo era uma pedra
de mármore, quase sempre bem limpa. mesmo
por baixo havia um lugar pequenino e escuro com
duas portas desalinhadas, difíceis de fechar. era ali
que estava a caixa, guardada, religiosamente, a caixa
de bolachas: as campechanas que a avó aurora nos ofereceu
naquele natal não recordo agora o ano
ao certo. lembro-me que não sorri quando
fui receber os tios à porta, nem à prima lúcia que
com a boca ainda lambuzada de iogurte e açúcar perguntava
à mãe se a deixava ir brincar
um bocadinho. eu queria que viesses
depressa e convencesses o cão a não ladrar
de cada vez que eu passava com os meus
brinquedos em frente do tanque da tua
mãe. ao certo, só havia a parede e o estendal
as molas enfraquecidas pela chuva e eu gostava
do frio das tuas mãos.
de mármore, quase sempre bem limpa. mesmo
por baixo havia um lugar pequenino e escuro com
duas portas desalinhadas, difíceis de fechar. era ali
que estava a caixa, guardada, religiosamente, a caixa
de bolachas: as campechanas que a avó aurora nos ofereceu
naquele natal não recordo agora o ano
ao certo. lembro-me que não sorri quando
fui receber os tios à porta, nem à prima lúcia que
com a boca ainda lambuzada de iogurte e açúcar perguntava
à mãe se a deixava ir brincar
um bocadinho. eu queria que viesses
depressa e convencesses o cão a não ladrar
de cada vez que eu passava com os meus
brinquedos em frente do tanque da tua
mãe. ao certo, só havia a parede e o estendal
as molas enfraquecidas pela chuva e eu gostava
do frio das tuas mãos.
segunda-feira
ao daniel,
de uma outra janela
a lata estava ali mesmo
à espera que o pedro corresse
um bocadinho e ganhasse coragem
para a chutar. não é preciso muita
força – gritava a susana – que observava
a agitação dos pés e dava umas dicas – mais
à direita, vai, vai, é agora, eh pá chuta na bola – dizia
o daniel do outro lado da rua. eu agora
lembro-o e não sei por quanto tempo
ficaremos assim parados. no rosto dele parecia
que as ruas não custavam a subir
mesmo quando dobrava e comprimia à pressa
a sebenta no bolso de trás das calças e
adiantava o passo, a respiração. embaciava-se o vidro
na janela do menino do 2.º esquerdo, mesmo ali
a olhar para nós e a contar o tempo que demoraria
o pai da teresa a acomodar a bagagem dentro
do automóvel.
domingo
o homem demorava algum tempo
a apertar os botões todos da camisa. ele
queixava-se de uma página, a 57, agora relida
com urgência, dos pequenos detalhes do rosto
se lá tivessemos ficado a atirar objectos
para o fundo das arcas, se tivessemos compreendido
a textura nos olhos e a notícia. naquela casa
a mulher era mais rápida a sacudir as sombras
e a bater com força o tapete da rua
à janela. eu se os fechava e tinha medo
era porque imaginava o desequilíbrio de um prego
na parede. as avós encostadas e em fila
muito cansadas e à espera
pediam a deus o último suspiro
que ele viesse e as cegasse.
a apertar os botões todos da camisa. ele
queixava-se de uma página, a 57, agora relida
com urgência, dos pequenos detalhes do rosto
se lá tivessemos ficado a atirar objectos
para o fundo das arcas, se tivessemos compreendido
a textura nos olhos e a notícia. naquela casa
a mulher era mais rápida a sacudir as sombras
e a bater com força o tapete da rua
à janela. eu se os fechava e tinha medo
era porque imaginava o desequilíbrio de um prego
na parede. as avós encostadas e em fila
muito cansadas e à espera
pediam a deus o último suspiro
que ele viesse e as cegasse.
quinta-feira
quarta-feira
ainda há pouco confundia a geografia do rio
com a função de um pequeno electrodoméstico.
de cada vez que digo: a terra fica mais escura ou
com a função de um pequeno electrodoméstico.
de cada vez que digo: a terra fica mais escura ou
guarda bem o segredo e para sempre essa caixa, o frio
de uma taça qualquer aparece e logo o comparo a uma lanterna
de aço, ao movimento dos ombros quando subimos a rua. ainda há botões
dentro dos frascos, ferrugem e humidade nas linhas, cascas
de uma taça qualquer aparece e logo o comparo a uma lanterna
de aço, ao movimento dos ombros quando subimos a rua. ainda há botões
dentro dos frascos, ferrugem e humidade nas linhas, cascas
de laranja que colecciono secas e costuro a apertá-las muito
no forro, na metade cinzenta do teu casaco. ainda há pouco
dizia: os estilhaços parecem redondos, quando
queria ter dito: o reflexo nas árvores
no forro, na metade cinzenta do teu casaco. ainda há pouco
dizia: os estilhaços parecem redondos, quando
queria ter dito: o reflexo nas árvores
as mãos de um deus.
terça-feira

chegamos a casa e trocamos pétalas por ossos.
as mãos ficam transparentes. ainda
trazemos a água dos peixes
na ponta dos dedos, destroços
de uma árvore na boca. é possível ver alguns
cadáveres do outro lado. o mesmo movimento
de sempre, digo: abre a porta, devagar.
sabemos pouco do animal morto
da sua cabeça e pescoço húmido a desaparecer
na terra. do intervalo da nuvem a queimar
a matéria dos objectos.
Fotografia de Velislava.
domingo
sábado

há uma mulher de luto em cada escada
de um prédio. elas sabem da existência
dos braços. dentro dos pulmões conhecem
a contrariedade das coisas que se fragmentam.
se olhares o chão, verás a luz que falta? dizem
algumas que as sombras tremem no casulo dos alvéolos.
que são as vizinhas a queimar na pele o que não se vê
quando regressam a casa dos filhos.
o silêncio na bissectriz de um arco? dizem algumas
que se pudessem ficar ali a distinguir o pó
da corda mudariam o instante
de um astro. elas sabem da existência
dos braços, dentro parece-lhes que tudo morre
com urgência.
Fotografia de Velislava.
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