domingo
enquanto espero o 159
penso o amor e uma cadeira
a textura fina do pó e um bago de arroz.
penso nas raparigas que vejo chegar
nas cidades todas que trazem dentro delas.
não sei sequer se existo ainda, mas há som
atrás do vidro e há pessoas que se aproximam.
penso o amor e uma cadeira
os aviões que aterram no aeroporto de lisboa.
não fumo há mais de quatro anos, lembrei-me agora e
daquela t-shirt que me emprestavas para dormir, não sei
porquê agora isto e o sabor quente da meia de leite a ferver
o coração a bater pela casa
a ventania e o coração a bater pela casa.
nada disto interessa
não tenho trinta anos e não estudo antropologia.
os meus pais não são de lisboa. a minha mãe não é médica
o meu pai não é arquiteto. não tenho irmãos não gosto
de palavras nem que me vejam nua
a sair do duche. gosto de sexo e da tua boca.
gosto de sexo e de te ver. gosto que me ajeites a blusa
de quando me apertas nas ancas e me inclinas
a cabeça para trás com força.terça feira é o dia
em que recordo um bocadinho o destino.
lembra-me a terça feira cantada pelo sérgio godinho,
o cheiro que se entranha na roupa
ao sair da feira da ladra.
quarta-feira
sábado
vou pedir-te um beijo e depois começar de novo
vou pedir-te um beijo e depois começar a ler o livro
aquele que um dia me emprestaste à pressa
à saída do metro de sete rios. sei que sorriste
ao colocar as mãos nos bolsos e eu apertei firme a pontinha dos pés e
contive o abraço. mas um dia vou pedir-te um abraço e depois um beijo
como os que vejo nos filmes, como os dos amantes que anoitecem
de mãos dadas. vou pedir-te a água dos passeios, pedir-te que fales da paz
que perdemos ao aproximarmo-nos de tudo o que amamos,
do que podemos transformar ao darmos as mãos.
só tenho como anoitecer contigo. não tenho como elevar-me
ao cimo do fogo, não tenho como sentar-me à mesa do café
que perdemos ao aproximarmo-nos de tudo o que amamos,
do que podemos transformar ao darmos as mãos.
só tenho como anoitecer contigo. não tenho como elevar-me
ao cimo do fogo, não tenho como sentar-me à mesa do café
e fingir ver-te dançar. às vezes apareces e cantas uma canção
eu sento-me nos telhados e começo a contar-te os dedos dos pés.
eu sento-me nos telhados e começo a contar-te os dedos dos pés.
um dia vou pedir-te que cases comigo que não esqueças a casa e o mar
que me leves no teu colo a andar de bicicleta.
domingo
no cimo daquela árvore
vamos brincar ao jogo das palavras
tu dizes primeiro a palavra vento e eu fecho os olhos.
só depois posso lembrá-lo livre e compor
a sua forma, no teu cabelo.
sexta-feira
um pouco antes de subires ao palco, ouviu-se ou 1, 2, 3, 4, 5 e é agora.
domingo
por um instante, pensei que lá estivesses
ela escrevia cartas de amor e algumas tinham
o movimento da luz e das datas inteiras. entre elas
as mãos abertas e o antónimo delas mesmas, às vezes
sobre a mesa até pareciam verdadeiras. pensara muito nisto
e no lume quente do inverno a assinalar o ponto
mais seguro na casa. pensara muito nisto e nas pessoas
que se sentam nos passeios e inventam palavras e alugam quartos
na cidade. depois lembrou-se das putas e do sabor
das pastilhas e do algodão doce na boca, da eternidade
do homem e da maravilha de tudo parecer assim
maior quando se termina uma frase com um para
sempre, meu amor. ela pensara muito nisto e
na terra. disse-me uma vez que a terra e o corpo
eram dissolúveis num tempo comum a todos e que era só isso
que importava que não queria explicar-se que era já noite
que tinha ainda que caminhar muito até chegar
ao outro lado da rua.
o movimento da luz e das datas inteiras. entre elas
as mãos abertas e o antónimo delas mesmas, às vezes
sobre a mesa até pareciam verdadeiras. pensara muito nisto
e no lume quente do inverno a assinalar o ponto
mais seguro na casa. pensara muito nisto e nas pessoas
que se sentam nos passeios e inventam palavras e alugam quartos
na cidade. depois lembrou-se das putas e do sabor
das pastilhas e do algodão doce na boca, da eternidade
do homem e da maravilha de tudo parecer assim
maior quando se termina uma frase com um para
sempre, meu amor. ela pensara muito nisto e
na terra. disse-me uma vez que a terra e o corpo
eram dissolúveis num tempo comum a todos e que era só isso
que importava que não queria explicar-se que era já noite
que tinha ainda que caminhar muito até chegar
ao outro lado da rua.
toalha de mesa
não peço que regresses, que fiques.
sentemo-nos apenas no cimo do que vês.
quero ser apenas a mulher carvão
um peixe carvão, talvez um coração carvão
desenhado a lápis, no teu caderno.
também eu sorria
colocavas os punhos dentro de água e depois o rosto e
sorrias. sabe tão bem a água fresca no rosto e eu lembro-me
(ainda) da luz no pouco espaço da casa e depois de mais tarde repetir
sabe tão bem a água fresca no rosto, tinhas razão e agora vê
a película de água que se estende no espelho.
sorrias. sabe tão bem a água fresca no rosto e eu lembro-me
(ainda) da luz no pouco espaço da casa e depois de mais tarde repetir
sabe tão bem a água fresca no rosto, tinhas razão e agora vê
a película de água que se estende no espelho.
de chávena na mão, no café de sempre
perguntei-lhe se gostava de amoras
do chão onde se calculam os passos
das palavras demoradas nos passeios do tempo.
perguntei-lhe pela paz
pelo sorriso dos que não dizem.
tivesse ainda tempo e perguntar-lhe ia se ainda namora com o rui
se comprou casa em sete rios, se ainda adormece a ler
se a sua mãe é viva e se recorda o cheiro dos queques da dona rita,
do nome da filha da dona são.
tivesse ainda tempo e perguntar-lhe-ia pela vanda,
se ainda anoitecem pessoas, por aquele bairro.
a água fria muito tempo no corpo
um dia deixarás de ter um coração completo.
um dia deixarás de ter um coração completo
as tuas mãos serão perfeitas
na largura dos lagos.
as luzes tornar-se-ão ácidas
na largura dos lagos.
as luzes tornar-se-ão ácidas
diante das casas e da tristeza das mulheres.
será o cheiro da acetona que dilui
a entrar primeiro, depois alguém
será o cheiro da acetona que dilui
a entrar primeiro, depois alguém
a cercar de terra o endereço da idade.
lembrarás a renda na caixa de ferro
o fundo vazio do alguidar
lembrarás a renda na caixa de ferro
o fundo vazio do alguidar
a água fria muito tempo no corpo
o plástico na sentença do fogo.
um dia deixarás de ter um coração completo
e serão os filhos dos outros
a recolher os teus olhos
no escuro da cave.
no escuro da cave.
disseste, em modo de segredo, ao meu ouvido
és o meu pássaro de fogo
sobre a planície em sol poente.
sobre a planície em sol poente.
terça-feira
funeral às duas da tarde

da helena que morreu fala-se pouco.
dizem que havia um homem que a amara
que o seu coração tivera sido enterrado lá longe
numa montanha. dizem que ela chorara muito lá longe
que falara de uma vida inteira escrita num muro
num muro alto num muro alto e escuro. mais alto
do que escuro mas o quanto baste para não se verem
as árvores. da helena que morreu e deste inverno
tem-se falado pouco. dizem que há a noite e o café
e a música que tudo torna diferente e possível.
da helena dizem que inventou o amor dentro de uma casa e
que mais tarde lhe deitou o fogo. que o seu coração ia
cinzento quando o enterraram.
fotografia de b.berenika.
segunda-feira
poderás então entrar e não passar pela porta
esta é a casa onde vivo e a morada é a mesma de sempre.
cheia de coisas mortas para além das tuas mãos.
outra vez as tuas mãos, a memória que guardo das tuas mãos.
as nossas e a ternura do dedo mindinho a dar mais segurança ao mundo.
existem outras memórias que se recolhem na casa sem que tenha
que lhes pedir. elas sabem do tempo e assim deixam-se confundir nas horas e
rapidamente alteram as cores ao outono. aqui há mulheres sentadas
não se veem os olhos porque os perderam quando chegaram
não se veem os olhos porque os perderam quando chegaram
à idade de reconhecer a verdade toda do mundo. é muito pouco o mundo que
existe agora, nesta casa. o pouco que existe vem em silêncio
reúne o cinzento dos tecidos com a memória dos barcos e dos filhos
que nasceram neles e sem mãos. também há mãos antigas
que não trazem destinos dentro delas e, a essas, guardo-as numa caixa
depois de as beijar muito e de lhes prometer o amor. algumas perguntam
pelo vento das ruas e pedem-me que as ofereça aos filhos que nasceram sem mãos.
digo-lhes que existe um fim de tarde em cada dia e que com ele
uma solidão bonita. digo-lhes que dentro dela podem ficar para sempre.
ela cantava a tarefa árdua do músculo
agora andas com os pés na terra disseram e
até sorriram um pouco quando lhes falei se fecharmos os olhos é
mais fácil de reconhecer os caminhos que nos trazem a casa. a minha mãe
pedia socorro, eu ouvia-lhe o canto e os pés na calçada a afastar o tempo à força
a força dos braços nas tarefas habituais o tremor de um cansaço
o gesto de quem não tem luz só indiferença e ninguém.
a tia lurdes sei que nunca tivera habilidades na terra e
o que lhe vinha ao coração era o que teimava em celebrar
como a força da vida. ambas se escolhiam na tarefa do amor
a minha mãe entrava-lhe para dentro do coração
organizava-lhe a desobediência dos espaços e cantava
e aquele era o lugar de tudo e assim a distância
a que ficavam da morte era por momentos inesperada.
assim se enganavam na solidão. e eu também que as escutava
à espera de um sinal talvez semelhante aos teus joelhos
ao contorno dos teus joelhos quando os unes com ternura, meu amor
de algo foragido que aparecesse e me levasse, algo que só nós
soubéssemos. talvez um pedaço de papel dobrado em quatro e nele
uma outra constelação, um número de telefone, uma mancha de café.
quarta-feira
ainda há tempo para bebermos umas caipirinhas
se eu morresse nas tuas mãos, mas morresse mesmo
sem metáforas: o coração parava e ponto e pronto e logo
mais tarde se trataria do funeral e das coisas tristes que seriam tuas
talvez não menos tristes do que as minhas. o que dirias
ao olhar o meu corpo morto, se tivesses coragem, pergunto.
domingo
quarto escuro
metade de um século a lançar algarismos para dentro dos ossos.
são agora inúteis as lâmpadas no teu corpo.
imagem retirada da net.
sexta-feira
de repente, uma outra coisa qualquer
seria este o nosso código: subir a montanha
mais alta (eu também) e se lá chegássemos seria o beijo
a única metáfora a acontecer-nos nesse dia.
fotografia de b.berenika.
ainda a chuva, a cair fria do outro lado
não consegui dizer-lhe a morte e as suas mãos nos meus cabelos.
poderia ainda dizer-lhe que nunca consegui esquecer
a morte das suas mãos as mãos no limite da mesa e ainda a chuva
a cair fria do outro lado. escrevo outra vez sobre as suas mãos
e a morte e esta distância que nos afasta o coração das margens
e depois de uma outra morte que não consigo explicar porque se confunde
com a água e com o coração dos pássaros
com a água que existe no coração dos pássaros
com tudo o que existe dentro do coração dos pássaros.
não consegui dizer-lhe uma morte diferente da sua
nas minhas mãos. não conheço a morte que as outras mãos têm e
é por isso que me é tão difícil amá-las.
poderia ainda dizer-lhe que nunca consegui esquecer
a morte das suas mãos as mãos no limite da mesa e ainda a chuva
a cair fria do outro lado. escrevo outra vez sobre as suas mãos
e a morte e esta distância que nos afasta o coração das margens
e depois de uma outra morte que não consigo explicar porque se confunde
com a água e com o coração dos pássaros
com a água que existe no coração dos pássaros
com tudo o que existe dentro do coração dos pássaros.
não consegui dizer-lhe uma morte diferente da sua
nas minhas mãos. não conheço a morte que as outras mãos têm e
é por isso que me é tão difícil amá-las.
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