sexta-feira
de mármore, quase sempre bem limpa. mesmo
por baixo havia um lugar pequenino e escuro com
duas portas desalinhadas, difíceis de fechar. era ali
que estava a caixa, guardada, religiosamente, a caixa
de bolachas: as campechanas que a avó aurora nos ofereceu
naquele natal não recordo agora o ano
ao certo. lembro-me que não sorri quando
fui receber os tios à porta, nem à prima lúcia que
com a boca ainda lambuzada de iogurte e açúcar perguntava
à mãe se a deixava ir brincar
um bocadinho. eu queria que viesses
depressa e convencesses o cão a não ladrar
de cada vez que eu passava com os meus
brinquedos em frente do tanque da tua
mãe. ao certo, só havia a parede e o estendal
as molas enfraquecidas pela chuva e eu gostava
do frio das tuas mãos.
segunda-feira
a lata estava ali mesmo
à espera que o pedro corresse
um bocadinho e ganhasse coragem
para a chutar. não é preciso muita
força – gritava a susana – que observava
a agitação dos pés e dava umas dicas – mais
à direita, vai, vai, é agora, eh pá chuta na bola – dizia
o daniel do outro lado da rua. eu agora
lembro-o e não sei por quanto tempo
ficaremos assim parados. no rosto dele parecia
que as ruas não custavam a subir
mesmo quando dobrava e comprimia à pressa
a sebenta no bolso de trás das calças e
adiantava o passo, a respiração. embaciava-se o vidro
na janela do menino do 2.º esquerdo, mesmo ali
a olhar para nós e a contar o tempo que demoraria
o pai da teresa a acomodar a bagagem dentro
do automóvel.
domingo
a apertar os botões todos da camisa. ele
queixava-se de uma página, a 57, agora relida
com urgência, dos pequenos detalhes do rosto
se lá tivessemos ficado a atirar objectos
para o fundo das arcas, se tivessemos compreendido
a textura nos olhos e a notícia. naquela casa
a mulher era mais rápida a sacudir as sombras
e a bater com força o tapete da rua
à janela. eu se os fechava e tinha medo
era porque imaginava o desequilíbrio de um prego
na parede. as avós encostadas e em fila
muito cansadas e à espera
pediam a deus o último suspiro
que ele viesse e as cegasse.
quinta-feira
quarta-feira
com a função de um pequeno electrodoméstico.
de cada vez que digo: a terra fica mais escura ou
de uma taça qualquer aparece e logo o comparo a uma lanterna
de aço, ao movimento dos ombros quando subimos a rua. ainda há botões
dentro dos frascos, ferrugem e humidade nas linhas, cascas
no forro, na metade cinzenta do teu casaco. ainda há pouco
dizia: os estilhaços parecem redondos, quando
queria ter dito: o reflexo nas árvores
terça-feira

chegamos a casa e trocamos pétalas por ossos.
as mãos ficam transparentes. ainda
trazemos a água dos peixes
na ponta dos dedos, destroços
de uma árvore na boca. é possível ver alguns
cadáveres do outro lado. o mesmo movimento
de sempre, digo: abre a porta, devagar.
sabemos pouco do animal morto
da sua cabeça e pescoço húmido a desaparecer
na terra. do intervalo da nuvem a queimar
a matéria dos objectos.
Fotografia de Velislava.
domingo
sábado

há uma mulher de luto em cada escada
de um prédio. elas sabem da existência
dos braços. dentro dos pulmões conhecem
a contrariedade das coisas que se fragmentam.
se olhares o chão, verás a luz que falta? dizem
algumas que as sombras tremem no casulo dos alvéolos.
que são as vizinhas a queimar na pele o que não se vê
quando regressam a casa dos filhos.
o silêncio na bissectriz de um arco? dizem algumas
que se pudessem ficar ali a distinguir o pó
da corda mudariam o instante
de um astro. elas sabem da existência
dos braços, dentro parece-lhes que tudo morre
com urgência.
Fotografia de Velislava.
quinta-feira
quarta-feira

às vezes sento-me a olhar o chão
a ver as paredes azuis, a contar o tempo
a lembrar o sangue nos telhados e as ruas onde nos cruzamos.
fico apenas a enrolar um fio do meu cabelo à volta
do dedo mindinho e a pensar, um triângulo
na direcção do lugar onde devo morrer.
os traços imitam as estações.
fotografia de Gundega Dege.
sexta-feira
1,2 e 3.
quarta-feira
que tinha visto um coração branco
a crescer num vaso azul e que no fundo
do vaso havia buraquinhos redondos
que o deixavam respirar sem nós sabermos.
ela repetiu que não estava a mentir
que era verdade, o ar entrava mesmo.
depois disto, não me quis contar mais nada
foi buscar a caixinha dos lápis
e sem que eu a ouvisse respirar começou
por medir o espaço entre as flores e parecia-me
que delas recolhia a luz ao fim da tarde
quando de vez em quando era a sua mão que subia
a afastar a franjinha do cabelo.
já está! tu não acreditas, pois não? mas é verdade
as flores é que não estavam lá
fui eu que as desenhei
para o coração não ficar triste.
domingo
geometria de um mundo pequenino
de uma panela de alumínio. depois chamavas-me: filha
e ajeitavas a querer afundá-lo muito no útero
o teu vestido de pano. a água aguardava a velocidade da fervura
eu pousava as canecas de barro no tabuleiro, imaginava a geometria
de um mundo pequenino, calculava alto a tabuada do sete
e às vezes eu sabia que tu choravas e as nossas mãos
pareciam quase circulares quando víamos os meses a desaparecer na janela.
bebíamos o chá e dizias filha a querer muito os teus olhos estão cansados.
podemos esperar, mamã? e sentávamo-nos ainda com o quente
doce na boca a tentar entender a nudez das árvores.
depois à noite levantávamos as pernas ao alto e era uma casa de riso
quando debaixo dos lençóis nos descobríamos
duas meninas a crescer no tempo
e nos víamos adormecer.
quinta-feira
quarta-feira

do amor sei as mães que cantam as coisas
a parte ardida. o fundo, uma gaveta e eu. e eu
a pensar o contorno do óleo no escuro
dos dedos. diz-me, sabes a rosa que transpira? lembro-a
quando ainda fechamos os olhos, os fingimos morrer para
depois nos amarmos muito. do amor, eu ouço portas
a gritar a espessura da noite, a madeira frágil
a encher a casa. um plátano de seda

tocas o sangue que escorre, dentro
do meu corpo. a pele sem têmpora, a pele
muito quente, e ainda os lugares onde
nos sabemos. existe uma rua estreita
quando as tuas mãos apagam a luz, quando
as afasto no escuro, e as defendo.
e há a dor que permite, a dor do ferro. é
quente, o muro dos teus lábios
quando se demora e o transforma.
por dentro há um outro líquido quando me olhas
as tuas mãos parecem um segredo quando me tocam.
Fotografia de Berenika.
quinta-feira

há uma verdade-triste que coloco em todas as coisas.
quando digo todas as coisas, digo também a parte
mais iluminada do teu rosto. as vezes
em que apertas com força os lábios
uma e outra vez. e ainda outra
quando alguém diz o vermelho
fresco, um ponto e um limão
a simetria, o vento que fica
em todos os lugares, o túnel comprido
onde o medo é maior se lá entrarmos
se soltarmos as mãos; algo
que nos escapa quando rezamos
que acontece quando caímos.
Fotografia de Berenika.

