Sábado, Julho 05, 2008

há muito tempo que conversamos sobre as coisas
que não têm um lugar fixo nos móveis. a moldura é pequena
e mesmo assim, nela a imagem, a única a lembrar-nos
o apartamento e alguns objectos que aconteceram
naquele dia. às vezes, as plantas eram colocadas no chão
da varanda, perto da sombra causada pela roupa do estendal
ou ao lado da estante de pinho, no quadrado da sala.
temos de dar um lugar certo às coisas, um lugar onde
possam morrer para depois ficarem aqui, presas aos olhos
como uma luz sépia a confundir-nos o corpo todo e
a parte mais funda da terra. não havia mais nada
para dizer e tu inventavas as horas da tarde e o bairro
da tua rua era uma extensão de pessoas a esquecer
promessas e a olhar ao cimo, as duas torres da igreja.
naquela manhã pouco importaram as conversas. ela deixara
o quarto meticulosamente arrumado e a sopa ainda
ao lume. ninguém diria que teria sido possível vê-la
morrer assim, de pulsos cortados.

Sexta-feira, Junho 27, 2008

o último estrondo foi o da porta
a bater com força uma vez mais
antes de se fechar completamente. eu ouvi
e não tenho dúvidas que perguntaram as horas
às senhoras da farmácia, eram oito
e vinte e já tinham ali passado outras
pessoas que desciam dos autocarros. ela ia
carregada com os sacos, pelo menos três
e levava a mala e a maldita alça descaída
a prender-lhe o braço direito disseram
as vizinhas: que desgraça a da irene e os bombeiros
que demoraram tanto tempo a retirar o corpo
do prédio e a esfregar o sangue das escadas.

Segunda-feira, Junho 09, 2008

lote: 108 3.º direito

tocavas três vezes lá em baixo e dizias para
eu descer e que não encostasse as mãos
à parede do poço do elevador. eu ainda gritava
da janela: está bem, mas bem que podias ser tu
a subir. eu abraçava-te, pensava que ias
morrer na manhã seguinte, no sábado ou
numa outra noite qualquer quando partisses
em direcção a outro caminho, talvez lisboa. eu não sabia
como contar-te que quando tocavas três vezes,
a possibilidade de ser maior a distância
entre nós, o teu quintal e as coisas mortas
que lá existiam, tudo isso diminuía. às vezes,
eu ouvia a dona guida a queixar-se: um dia, menina,
ainda cai por essa escada. a menina
era eu e um pouco de terra presa à sola
das botas, eu, e os meus braços de oito anos
a sair com pressa do prédio.

Terça-feira, Junho 03, 2008

a verdade é que eu não sei
amar-te de outra maneira:
há estrelas que cobrem o céu
todo. por todo o lado só
vejo estrelas.

Domingo, Maio 18, 2008













és tu o incêndio e a rosa
nos meus olhos. sei que ainda moras
nas ruas e lembro mesmo algumas
mulheres que apontavam ao longe
a cidade e a noite. não se vê daqui
a ponte e não tenho como saber
a hora exacta em que tocaste os meus
cabelos e o vento subiu a beijar-te
os olhos.


desenho de Aida Monteiro.

Sexta-feira, Abril 18, 2008

o estranho da casa
é sermos nós as coisas breves
dentro dela. as luzes
quando as apagamos e nos tocamos depois
sem medo.

Quarta-feira, Março 05, 2008

no último encontro a noite
redonda, a boca muito
aberta e redonda: a água
de todos os invernos.

Terça-feira, Fevereiro 12, 2008

usado, pode ser um bocadinho
desse papel branco. é só para apontar
uma ideia: nas ruas as pessoas tropeçam menos
quando nos encontramos. as janelas
lá ao longe parecem agora tão pequeninas.
lembro-me de quando parámos a rir
respirámos por uns segundos sem nos olharmos
nos olhos e voltámos a rir e a redobrar o riso
até que demos as mãos, vimos a estrada.
uma ideia dessas, daquelas que demoram
a crescer nas sebentas e depois adoecem rápido
naquele dia pensei que estaríamos sós:
o barco sem ninguém, só o coração e o peso
dos sacos. depois os pés quase a tocar o rio.
mais tarde o eléctrico e o teu sorriso
ainda a arder nos meus olhos, a caminho de casa.

Segunda-feira, Janeiro 07, 2008



















as pedras são duras: magoam
se as apertamos com força
nas mãos. o que quiseres mostrar
dizias, parece vento e é moldável
com os lábios, quiçá o mar ou um pedaço
de papel para somarmos a distância entre
dois corações, os meses que faltam
no meu corpo. porque faltam sempre meses
aos corpos, e as coisas mais tristes adoecem
a seu tempo. escrevo mais uma vez as coisas
mais tristes, lembro-as. à entrada das vogais
abertas, redondas, estão pequenas estruturas
feitas de laços e torrões de terra.


Fotografia de Elifkarakoc.