domingo

no cimo daquela árvore





vamos brincar ao jogo das palavras
tu dizes primeiro a palavra vento e eu fecho os olhos.
só depois posso lembrá-lo livre e compor
a sua forma, no teu cabelo.

sexta-feira

num café que não lembro o nome

a névoa nunca é tão doce
como quando te debruças ao vento - disseste um dia.





um pouco antes de subires ao palco, ouviu-se ou 1, 2, 3, 4, 5 e é agora.





















I
se respirares por mim ensino-te a cantar.

II
ensinas-me a íris dos olhos, a pintura do sol?

III
hei-de construir-te uma casa com muitas janelas e o tempo dentro delas.

IV
e se nos esquecermos?

V
desenhamos um coração num pedaço de terra
e nele o mundo?

domingo

por um instante, pensei que lá estivesses

ela escrevia cartas de amor e algumas tinham
o movimento da luz e das datas inteiras. entre elas
as mãos abertas e o antónimo delas mesmas, às vezes
sobre a mesa até pareciam verdadeiras. pensara muito nisto
e no lume quente do inverno a assinalar o ponto
mais seguro na casa. pensara muito nisto e nas pessoas
que se sentam nos passeios e inventam palavras e alugam quartos
na cidade. depois lembrou-se das putas e do sabor
das pastilhas e do algodão doce na boca, da eternidade
do homem e da maravilha de tudo parecer assim
maior quando se termina uma frase com um para
sempre, meu amor. ela pensara muito nisto e
na terra. disse-me uma vez que a terra e o corpo
eram dissolúveis num tempo comum a todos e que era só isso
que importava que não queria explicar-se que era já noite
que tinha ainda que caminhar muito até chegar
ao outro lado da rua.

toalha de mesa


não peço que regresses, que fiques.
sentemo-nos apenas no cimo do que vês.
quero ser apenas a mulher carvão
um peixe carvão, talvez um coração carvão
desenhado a lápis, no teu caderno.


também eu sorria

colocavas os punhos dentro de água e depois o rosto e
sorrias. sabe tão bem a água fresca no rosto e eu lembro-me
(ainda) da luz no pouco espaço da casa e depois de mais tarde repetir
sabe tão bem a água fresca no rosto, tinhas razão e agora vê
a película de água que se estende no espelho.

de chávena na mão, no café de sempre


perguntei-lhe se gostava de amoras
do chão onde se calculam os passos
das palavras demoradas nos passeios do tempo.
perguntei-lhe pela paz
pelo sorriso dos que não dizem.
tivesse ainda tempo e perguntar-lhe ia se ainda namora com o rui
se comprou casa em sete rios, se ainda adormece a ler
se a sua mãe é viva e se recorda o cheiro dos queques da dona rita,
do nome da filha da dona são.
tivesse ainda tempo e perguntar-lhe-ia pela vanda,
se ainda anoitecem pessoas, por aquele bairro.





a água fria muito tempo no corpo

um dia deixarás de ter um coração completo.
as tuas mãos serão perfeitas
na largura dos lagos.
as luzes tornar-se-ão ácidas
diante das casas e da tristeza das mulheres.
será o cheiro da acetona que dilui
a entrar primeiro, depois alguém
a cercar de terra o endereço da idade.
lembrarás a renda na caixa de ferro
o fundo vazio do alguidar
a água fria muito tempo no corpo
o plástico na sentença do fogo.

um dia deixarás de ter um coração completo
e serão os filhos dos outros
a recolher os teus olhos
no escuro da cave.

disseste, em modo de segredo, ao meu ouvido


és o meu pássaro de fogo
sobre a planície em sol poente.

terça-feira

funeral às duas da tarde





















da helena que morreu fala-se pouco.
dizem que havia um homem que a amara
que o seu coração tivera sido enterrado lá longe
numa montanha. dizem que ela chorara muito lá longe
que falara de uma vida inteira escrita num muro
num muro alto num muro alto e escuro. mais alto
do que escuro mas o quanto baste para não se verem
as árvores. da helena que morreu e deste inverno
tem-se falado pouco. dizem que há a noite e o café
e a música que tudo torna diferente e possível.
da helena dizem que inventou o amor dentro de uma casa e
que mais tarde lhe deitou o fogo. que o seu coração ia
cinzento quando o enterraram.


fotografia de b.berenika.



segunda-feira

poderás então entrar e não passar pela porta

esta é a casa onde vivo e a morada é a mesma de sempre.
cheia de coisas mortas para além das tuas mãos.
outra vez as tuas mãos, a memória que guardo das tuas mãos.
as nossas e a ternura do dedo mindinho a dar mais segurança ao mundo. 
existem outras memórias que se recolhem na casa sem que tenha
que lhes pedir. elas sabem do tempo e assim deixam-se confundir nas horas e
rapidamente alteram as cores ao outono. aqui há mulheres sentadas
não se veem os olhos porque os perderam quando chegaram
à idade de reconhecer a verdade toda do mundo. é muito pouco o mundo que
existe agora, nesta casa. o pouco que existe vem em silêncio
reúne o cinzento dos tecidos com a memória dos barcos e dos filhos
que nasceram neles e sem mãos. também há mãos antigas
que não trazem destinos dentro delas e, a essas, guardo-as numa caixa
depois de as beijar muito e de lhes prometer o amor. algumas perguntam
pelo vento das ruas e pedem-me que as ofereça aos filhos que nasceram sem mãos.
digo-lhes que existe um fim de tarde em cada dia e que com ele
uma solidão bonita. digo-lhes que dentro dela podem ficar para sempre.

ela cantava a tarefa árdua do músculo


agora andas com os pés na terra disseram e
até sorriram um pouco quando lhes falei se fecharmos os olhos é
mais fácil de reconhecer os caminhos que nos trazem a casa. a minha mãe
pedia socorro, eu ouvia-lhe o canto e os pés na calçada a afastar o tempo à força
a força dos braços nas tarefas habituais o tremor de um cansaço
o gesto de quem não tem luz só indiferença e ninguém.
a tia lurdes sei que nunca tivera habilidades na terra e
o que lhe vinha ao coração era o que teimava em celebrar
como a força da vida. ambas se escolhiam na tarefa do amor
a minha mãe entrava-lhe para dentro do coração
organizava-lhe a desobediência dos espaços e cantava
e aquele era o lugar de tudo e assim a distância
a que ficavam da morte era por momentos inesperada.
assim se enganavam na solidão. e eu também que as escutava
à espera de um sinal talvez semelhante aos teus joelhos
ao contorno dos teus joelhos quando os unes com ternura, meu amor
de algo foragido que aparecesse e me levasse, algo que só nós
soubéssemos. talvez um pedaço de papel dobrado em quatro e nele
uma outra constelação, um número de telefone, uma mancha de café.

quarta-feira

ainda há tempo para bebermos umas caipirinhas

se eu morresse nas tuas mãos, mas morresse mesmo
sem metáforas: o coração parava e ponto e pronto e logo
mais tarde se trataria do funeral e das coisas tristes que seriam tuas
talvez não menos tristes do que as minhas. o que dirias
ao olhar o meu corpo morto, se tivesses coragem, pergunto.
 

domingo

quarto escuro


                                    metade de um século a lançar algarismos para dentro dos ossos.
                                    são agora inúteis as lâmpadas no teu corpo.


imagem retirada da net.

sexta-feira

de repente, uma outra coisa qualquer


                                                                se ainda me amasses
                                                                seria este o nosso código: subir a montanha
                                                                mais alta (eu também) e se lá chegássemos seria o beijo
                                                                a única metáfora a acontecer-nos nesse dia.


fotografia de b.berenika.