Quarta-feira, Novembro 11, 2009

e ainda assim muitas pessoas chegariam a correr.
a maioria seriam as mulheres que conhecem todos os incêndios,
a força dos braços e o espaço que ninguém compreende vazio e só
porque não há luz no avesso dos olhos quando elas perguntam
a direcção dos aviões e aquilo que fica depois no céu. e ainda assim,
muitas mais apareceriam com o propósito de respirar as estrelas todas
da cidade, pediriam também que lhes explicassem o dia seguinte,
a proximidade a que estão das coisas que inventam.

Terça-feira, Outubro 27, 2009

sei muito pouco sobre ti, porém há ainda o sabor dos teus lábios
a lembrar-me o inverno, o rio e as muitas viagens de autocarro que faço
pela manhã enquanto leio os irmãos karamazov. há pessoas que se sentam
e sorriem quando me tocam sem querer e a seguir pedem desculpa
com os olhos. sei também que quando me olhas, a liberdade e
a medida que dás ao amor é completamente diferente à da ordem
dos dias e das casas mais próximas. haverá sempre
uma corda imaginária a tocar o princípio de tudo.

Segunda-feira, Julho 20, 2009

tenho quase a certeza que existe uma clareira
uma casa térrea onde costumas esconder as mãos e
tentar a eternidade. interromper o interior das coisas e chamar-lhe destino
é sempre mais fácil do que inventar cartazes a anunciar o que se multiplica
do lado de fora. há um determinado alvoroço que poucos vêem quando
chegas e o mês que passou será sempre uma imitação mediana
dos teus olhos. agora há apenas a influência do vidro dentro da noite.
tenho quase a certeza que tu também sabes disto e da dificuldade de chegar
aos sítios que não estão assinalados nos mapas.

Sexta-feira, Junho 12, 2009






















o homem pediu-lhe baixinho para que ela não morresse
para que espreitasse os dois vasos que ele lhe tivera falado
ainda na terça-feira passada, agora ali na janela, próximos,
um ao lado do outro. a mulher sorriu-lhe, lembrou-se
do que lhe acontecia às mãos e aos dedos quando indicavam
o trajecto de uma rua ou à água que caía dos telhados
nos meses de chuva. havia pessoas nos cafés que não falavam
umas com as outras e lembrou-se disso também, da palavra
helicóptero que sempre tivera muita dificuldade em pronunciar,
da idade em que as despedidas não eram longas e era só
a linha dos olhos e a insistência de um novo olhar na direcção das coisas.

fotografia: susana miguel

Quarta-feira, Março 25, 2009

poderia lhe ter dito que as coisas rápidas acontecem
todos os dias, falar-lhe um pouco da teoria dos conjuntos
vazios, do trânsito a entrar pela noite e da transformação
de um corpo com a humidade do rio e o calor de alguns
insectos, no entanto não sei ainda assim viver tão pouco
em verdade que facilmente as palavras começariam,
se as tivesse dito, a percorrer aeroportos e as muitas casas
que estão acima do vento e dos metais que confundimos.
depois teríamos medo das colinas e das mãos que apertam
os dedos, da ilusão dos lugares tristes e tudo seria feito de menos
respiração e haveria um largo cinzento na assimetria
da noite ou um pedaço de amor a incendiar a tua cidade.

Segunda-feira, Março 02, 2009















algures onde as pessoas se encontram por acaso
e pensam que talvez esteja ali a possibilidade de um amor
novo, não existe senão a miséria e a hipótese de nos tornarmos
criminosos. nesses lugares parece tudo tão fácil de esconder
e até há a boa vontade muitíssimo mais
dócil e a confiança do corpo noutro corpo e chegam-nos
mais duas bebidas sem gelo para sabermos que a casa
é ali perto, que já esteve mais distante a sombra da noite e
que o químico e a sua clareza hão-de esgotar-se pela manhã
bem cedo, quando o despertador tocar e ouvirmos alguém
descer as escadas, quando nos levantarmos a confirmar
o ruído do rádio e as chaves na porta.

imagem retirada da net.

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

ela deixou de beber café e de escrever cartas
de amor. pareciam-lhe maiores as salas de espera
dos centros de saúde e a imagem das estradas
e das aldeias revelavam também longas linhas rectas que
se poderiam prolongar até à meia noite dos dias seguintes
se não fechasse os olhos. esta ideia tornar-se-ia suficiente,
soube-o anos mais tarde, para que ela conseguisse falar
um pouco mais sobre os jornais que lera
nos primeiros meses de inverno telhas caíram
na rua da atalaia, não causando feridos
e é verdade, já me esquecia
de vos dizer, quando ela chegava ao seu quarto de 9 m2, alugado
num 1ºandar ali mesmo em santos, a primeira coisa que fazia
depois de se masturbar e de pensar vezes sem conta
na insignificância de alguns lugares e do seu acto de desamor
era acender um cigarro e reler as cartas que um dia ele lhe enviara
sem medo de lhe reconhecer uma idade diferente no rosto.

Sexta-feira, Janeiro 23, 2009

consigo imaginar-te a conduzir pela marginal, a ti e à velocidade
das árvores e das casas paradas por onde passas. é ilusão minha
ver-te naquela paragem de autocarro, mas hoje juro que te ouvi
a pedir um bilhete e vi a tua cara de desaprovação pelo 1,60€
que terias de pagar quando, que injustiça, era menos de
meio quilómetro e sairias logo dali a 3 minutos. foi confuso
e aconteceu tudo muito rápido como todas as coisas confusas
e imperceptíveis que dizemos ou pensamos
quando temos encontros inesperados.

Domingo, Dezembro 21, 2008

sleeplessHands

video


cada um de nós traz uma idade diferente nos bolsos e depois
há ainda o coração.

SleeplessHands é um momento de susana e rui.