Segunda-feira

a mãe da sónia estendeu a roupa na madrugada de dia 2.
naquela expressão de haver qualquer coisa interminável no céu,
toda a lisura do pano lhe entrara para dentro.
ela olhava e havia a força dos pés em biquinho e de um mundo térreo
que adivinhara sempre igual e a dissolver-se no ar.
com aquela expressão de haver qualquer coisa interminável no céu,
a mãe da sónia procurava as molas nas algibeiras, o riso
das mulheres e dos homens que conhecera. sabia pouco
sobre pássaros, mas quando os via acercarem-se do parapeito
a respiração elevava-se muito e com ela os braços e a voz.
a voz parecia um alvoroço a prolongar o fim de tudo.

Quarta-feira

é que só vemos os olhos quando os dias regressam
ao interior das coisas mais líquidas.

Quinta-feira

se eu morresse nas tuas mãos, mas morresse mesmo
sem metáforas: o coração parava e ponto e pronto
e logo, mais tarde, alguém trataria do funeral e das coisas
tristes que seriam tuas talvez não menos tristes do que as minhas,
o que dirias, ao olhar este corpo morto, se tivesses coragem?

Segunda-feira

colocavas os punhos dentro de água e depois o rosto e
sorrias. sabe tão bem a água fresca no rosto e eu lembro-me
(ainda) da luz no pouco espaço da casa e depois de mais tarde repetir
sabe tão bem a água fresca no rosto, tinhas razão e agora vê
a película de água que se estende no espelho.

Terça-feira

há pouco falávamos da solidão e daqueles que desaparecem com o tempo.
pareceu-nos que o mundo deixou de ser circular depois de falsear o trompete
e tu o dizeres sei muito pouco de ti e gostava de te beijar.
eu pensava nas manhãs genuinamente redondas e
no trinta que fez ontem quatro décadas e mais dois anos e do momento
em que o vi a lançar pedacinhos de pão à porta, este sábado de manhã,
depois de pousar o casaco no ombro e de contar à helena a desgraça de não
ter conhecido nenhuma mulher que o alumiasse no escuro da casa.
há maneiras diferentes de encolher os ombros e gostavas
do meu trompete e do som grave, um pouco fechado e rouco que dele vinha
e dizias-mo. o novo mundo estava ali e decidimos beber café e dizer
que as árvores estavam em flor e que talvez o mundo não acabasse.
os prédios são altos e há toalhas estendidas e mulheres que ainda passam
as tardes à janela. são feias e tristes as casas e eu discordei e
dizer-te que a minha alegria é pouca fez com que sorrisses e falasses
um pouco do mercado mesmo atrás de nós, desse lugar onde enlameámos
as botas pela primeira vez são bonitas e rasas, quase que tocamos o chão.

Segunda-feira

este bairro é pequeno e assim sempre que a vejo
chegar ao cimo da rua fico mais um bocadinho à janela e,
às vezes, confundo-a um pouco com o verde das árvores quando
atravessa o jardim. sempre à mesma hora, sempre à mesma hora
e eu a vê-la passar e a limpar os olhos e as manhãs que lá existem.
queria tanto dizer-te que aqui as casas entram para dentro dos corpos
e que se conheci o teu umbigo não foi por acaso que as noites ficaram
mais claras. agora, há mães que dormem e chove menos e os telhados estão
mais limpos neste domingo. chamar-me-ias louco se eu te dissesse
que todos os dias morrem mães e há ainda aquelas que não dormem e
que afirmam que o céu é uma construção sólida de blocos cinzentos.
um mundo cheio de lados contrários ao nosso, um bairro e eu
a ver-te ao longe e ao teu caminho e ao teu cabelo, enormes.


















porque eu queria amar todos os corpos e correr muito
na direcção de uma só luz.



fotografia de susana miguel.

Domingo

houve fragmentos de qualquer coisa (não sei o que era) que não se desfez
totalmente nas minhas mãos. há um pó invisível presente em tudo
o que observo (e também nos rios). nunca quisemos falar sobre isto
porque é triste falar desse bocadinho em nós que conhecemos melhor.
a palavra tempo nada diz sobre os lugares ainda por preencher no autocarro.
faltam poucos minutos para as onze e meia da noite e as horas apenas
e um pouco mais do que escutamos ao fim dos dias. o fornecedor
de bolos do café dali da frente leva escondido nas mãos e no corpo
todo (quem sabe) um bocadinho desse pó invísivel e entrou no táxi e
agora é dezembro e disse que quando era míudo fora sempre dezembro.
ainda agora vejo as luzinhas azuis a piscar entre os dedos respondeu o outro
e disse 4 euros, meu amigo e a vida é assim (pausa longa).
qualquer coisa (quem sabe).

fotografia de Alice Lemarim.

Quarta-feira

o comboio chegava sempre à estação do cacém às 18 e 01 e eu aparecia
logo, 2 minutinhos a seguir, perto de ti e agarrava-te o braço depois
de atravessar o túnel e de dizer olá ao joão do sapateiro que vendia
pensos rápidos e também colecções de isqueiros enquanto as moedas cresciam
nos bolsos e mais um mês e vou-me embora para a minha casa da terra.
o meu abraço, a minha voz e só depois o teu sorriso a reconhecê-la
e às árvores todas também e ao outono que cabia dentro delas nessa tarde.
eu sei, agora não é novembro, mas há quem ainda fale dele e da tristeza que é
acontecer-nos a morte numa cidade que não a nossa. uma vez disseram-te
que era necessário esquecer tudo, que não havia mal nisso e era verdade
os teus olhos ganhavam a forma mais líquida do mundo
e da cegueira, dizias-me: poderíamos dar-lhe o nome de saudade.