o comboio chegava sempre à estação do cacém às 18 e 01 e eu aparecia
logo, 2 minutinhos a seguir, perto de ti e agarrava-te o braço depois
de atravessar o túnel e de dizer olá ao joão do sapateiro que vendia
pensos rápidos e também colecções de isqueiros enquanto as moedas cresciam
nos bolsos e mais um mês e vou-me embora para a minha casa da terra.
o meu abraço, a minha voz e só depois o teu sorriso a reconhecê-la
e às árvores todas também e ao outono que cabia dentro delas nessa tarde.
eu sei, agora não é novembro, mas há quem ainda fale dele e da tristeza que é
acontecer-nos a morte numa cidade que não a nossa. uma vez disseram-te
que era necessário esquecer tudo, que não havia mal nisso e era verdade
os teus olhos ganhavam a forma mais líquida do mundo
e da cegueira, dizias-me: poderíamos dar-lhe o nome de saudade.
quarta-feira
domingo
a mulher esteve sempre ali, vês? (aponto) naquela estação de comboios,
esteve sempre lá, ao fundo e sentada, do outro lado da linha
à espera de alguém que viesse e lhe falasse um pouco
do absurdo que é o de deixar prontamente tudo arrumado e limpo
e ainda o percorrer da água no copo e a água nos dedos
e depois. e depois? (aponto) apenas o que perdemos, como se houvesse
um coração de água, uma circunferência no lugar certo, antes de partir.
esteve sempre lá, ao fundo e sentada, do outro lado da linha
à espera de alguém que viesse e lhe falasse um pouco
do absurdo que é o de deixar prontamente tudo arrumado e limpo
e ainda o percorrer da água no copo e a água nos dedos
e depois. e depois? (aponto) apenas o que perdemos, como se houvesse
um coração de água, uma circunferência no lugar certo, antes de partir.
quarta-feira
à minha irmã amélia agrada-lhe os meus vestidos e pensa
que eu sou feliz. chama-me e diz vera, o táxi já chegou e agora
quando cá voltas para nos abraçarmos muito e vermos as coisas
como elas são. não podemos falar das coisas como elas são,
da determinação que às vezes surge em procurar as escadas e desce-las a todas
e ficarmos ali a desentender o silêncio e a planear guardá-lo para que
ninguém o saiba. e nem sempre o que nos diz e o que dizemos depois aos outros é a verdade. há a ideia de uma dúvida e para isso servem os nossos braços
e a segurança de que são frágeis, os teus e os meus, para separar a morte
da força da corda quando não sabemos o fim que escolher.
encontramo-nos agora numa idade comum a quase todos onde nos demoramos
a alinhar frases e a procurar palavras que se mostrem
mais inteligíveis num destes dias. há-de fazer sentido assim,
umas ao lado das outras, o vento e a luz no candeeiro, concordámos.
que eu sou feliz. chama-me e diz vera, o táxi já chegou e agora
quando cá voltas para nos abraçarmos muito e vermos as coisas
como elas são. não podemos falar das coisas como elas são,
da determinação que às vezes surge em procurar as escadas e desce-las a todas
e ficarmos ali a desentender o silêncio e a planear guardá-lo para que
ninguém o saiba. e nem sempre o que nos diz e o que dizemos depois aos outros é a verdade. há a ideia de uma dúvida e para isso servem os nossos braços
e a segurança de que são frágeis, os teus e os meus, para separar a morte
da força da corda quando não sabemos o fim que escolher.
encontramo-nos agora numa idade comum a quase todos onde nos demoramos
a alinhar frases e a procurar palavras que se mostrem
mais inteligíveis num destes dias. há-de fazer sentido assim,
umas ao lado das outras, o vento e a luz no candeeiro, concordámos.
domingo
há dias em que sou o alimento e o sumo doce da uva,
em que sei a largura dos ossos e a flexibilidade do arco.
às vezes, confundo a sombra dos objectos, a paisagem e os espelhos.
depois tento escrever sobre o pó e os símbolos que conheço e que não conheço.
há caligrafias internas e isso o que é (pergunto) e a noite e a metáfora e eu
apenas sei de vidros, da espuma nos talheres de que já te falei em 2007
e pouco mais. há dias em que respiro muito pouco, sabes.
é apenas o músculo que separa o tempo
e entre as coisas está, às vezes, a alegria de tudo.
em que sei a largura dos ossos e a flexibilidade do arco.
às vezes, confundo a sombra dos objectos, a paisagem e os espelhos.
depois tento escrever sobre o pó e os símbolos que conheço e que não conheço.
há caligrafias internas e isso o que é (pergunto) e a noite e a metáfora e eu
apenas sei de vidros, da espuma nos talheres de que já te falei em 2007
e pouco mais. há dias em que respiro muito pouco, sabes.
é apenas o músculo que separa o tempo
e entre as coisas está, às vezes, a alegria de tudo.
quinta-feira
chove e é uma rosa e eu não sei se te foi muito difícil o azul - disseste.
ele disse-lhe que ela ainda conseguiria cantar e que o segredo está na forma
das mãos dela e é branco. é branco como será sempre branco o branco
frio da neve. ela disse-lhe que é abstracto e doce, que nas costas das mãos
o leite é branco e quente quando desce, quente sempre quente
a entrar nos poros, quente como o peso da roupa quando a retiramos
do nosso corpo ou ainda húmida da máquina ou quando a colocamos à pressa,
seca e do avesso, no alguidar, com água a ferver por baixo e
um pouco de detergente. um pouco da noite do outro lado e um armazém.
chove e é como uma rosa esta artéria que move o ar e não se vê e
eu não compreendo, não sei porque te digo isto agora, meu amor.
ele disse-lhe que ela ainda conseguiria cantar e que o segredo está na forma
das mãos dela e é branco. é branco como será sempre branco o branco
frio da neve. ela disse-lhe que é abstracto e doce, que nas costas das mãos
o leite é branco e quente quando desce, quente sempre quente
a entrar nos poros, quente como o peso da roupa quando a retiramos
do nosso corpo ou ainda húmida da máquina ou quando a colocamos à pressa,
seca e do avesso, no alguidar, com água a ferver por baixo e
um pouco de detergente. um pouco da noite do outro lado e um armazém.
chove e é como uma rosa esta artéria que move o ar e não se vê e
eu não compreendo, não sei porque te digo isto agora, meu amor.
terça-feira
...98,99,100.
sexta-feira
às vezes aquilo que dizíamos fazia muito pouco sentido
para os outros. ficávamos surpreendidas com o número de eléctricos
para os outros. ficávamos surpreendidas com o número de eléctricos
que passavam àquela hora e num domingo não era habitual apetecer-nos rir e
inventar uma paisagem no tempo que nos lembrasse
um destino, a antiguidade rodeada de casas e de séculos a crescer à altura
dos olhos de quem as conseguisse ver. e ali estávamos nós as duas
a imaginar uma vida para cada um dos botões que íamos vendo passar
cosidos e bem seguros aos casacos de outras mulheres. penso
em ti e na saudade a única maneira de amarmos as metades e escrevo
(agora forrada a tecido) nesta caixa: apontamentos
sobre a morte e um coração.
terça-feira
e o que sabes do amor, da acidez de uma laranja
da velocidade que existe nas coisas que se perdem por entre os líquidos,
do cair da espuma para dentro de um corpo, da perfeição do mar e a
de um estilhaço? apenas um estilhaço e a diferença entre as mãos,
de quem diz e quem não disse que há fórmulas mágicas que se recriam
no coração, é quase nenhuma. diz-me, o que sabes sobre a transparência
de alguns tecidos, dos lutos que se somam junto aos peixes?
da velocidade que existe nas coisas que se perdem por entre os líquidos,
do cair da espuma para dentro de um corpo, da perfeição do mar e a
de um estilhaço? apenas um estilhaço e a diferença entre as mãos,
de quem diz e quem não disse que há fórmulas mágicas que se recriam
no coração, é quase nenhuma. diz-me, o que sabes sobre a transparência
de alguns tecidos, dos lutos que se somam junto aos peixes?
sexta-feira
podemos conversar sobre as árvores que ainda existem na tua rua.
sobre os livros que esquecemos e de algumas pessoas que morreram
nos últimos anos. talvez ainda lembrar o sentido dos comboios e
a insignificância extraordinária que damos aos homens que obedecem às leis,
aos carteiros de bicicleta e mala a tiracolo de pele. eles não prescindem
dos factos e todas as cartas são entregues numa matemática quase perfeita
na convicção de que um esconderijo poderá demorar anos até
se tornar habitável por outros homens. podemos conversar sobre tudo
o que não é segredo. não poderemos voltar a falar de amor.
sobre os livros que esquecemos e de algumas pessoas que morreram
nos últimos anos. talvez ainda lembrar o sentido dos comboios e
a insignificância extraordinária que damos aos homens que obedecem às leis,
aos carteiros de bicicleta e mala a tiracolo de pele. eles não prescindem
dos factos e todas as cartas são entregues numa matemática quase perfeita
na convicção de que um esconderijo poderá demorar anos até
se tornar habitável por outros homens. podemos conversar sobre tudo
o que não é segredo. não poderemos voltar a falar de amor.
terça-feira
a única vez que a vi ela fazia renda no metro, entre anjos
e alameda, e nem por um minuto deixava de contar as laçadas
as voltas da linha na agulha. e assim passam os anos e esquecemos
as pequenas combustões, a razão de termos dado um início
ou de querermos encontrar os fins e a irregularidade nas coisas.
havia sempre o engenho de um gesto novo assim que parava
a meio, a confirmar a proximidade do seu destino ou quando
no contrário da peça, e verificava-a com atenção, examinava
o esforço: - dez minutos e tivesse eu ainda tempo. a tristeza
a exceder o número de vezes prevista e mais uma vez a reconstrução
de um mundo e há quem diga que sim que as noites são alteráveis
quando descem com habilidade ao coração das mulheres.
e alameda, e nem por um minuto deixava de contar as laçadas
as voltas da linha na agulha. e assim passam os anos e esquecemos
as pequenas combustões, a razão de termos dado um início
ou de querermos encontrar os fins e a irregularidade nas coisas.
havia sempre o engenho de um gesto novo assim que parava
a meio, a confirmar a proximidade do seu destino ou quando
no contrário da peça, e verificava-a com atenção, examinava
o esforço: - dez minutos e tivesse eu ainda tempo. a tristeza
a exceder o número de vezes prevista e mais uma vez a reconstrução
de um mundo e há quem diga que sim que as noites são alteráveis
quando descem com habilidade ao coração das mulheres.
quarta-feira
e ainda assim muitas pessoas chegariam a correr.
a maioria seriam as mulheres que conhecem todos os incêndios,
a força dos braços e o espaço que ninguém compreende vazio e só
porque não há luz no avesso dos olhos quando elas perguntam
a direcção dos aviões e aquilo que fica depois no céu. e ainda assim,
muitas mais apareceriam com o propósito de respirar as estrelas todas
da cidade, pediriam também que lhes explicassem o dia seguinte,
a proximidade a que estão das coisas que inventam.
a maioria seriam as mulheres que conhecem todos os incêndios,
a força dos braços e o espaço que ninguém compreende vazio e só
porque não há luz no avesso dos olhos quando elas perguntam
a direcção dos aviões e aquilo que fica depois no céu. e ainda assim,
muitas mais apareceriam com o propósito de respirar as estrelas todas
da cidade, pediriam também que lhes explicassem o dia seguinte,
a proximidade a que estão das coisas que inventam.
terça-feira
sei muito pouco sobre ti, porém há ainda o sabor dos teus lábios
a lembrar-me o inverno, o rio e as muitas viagens de autocarro que faço
pela manhã enquanto leio os irmãos karamazov. há pessoas que se sentam
e sorriem quando me tocam sem querer e a seguir pedem desculpa
com os olhos. sei também que quando me olhas, a liberdade e
a medida que dás ao amor é completamente diferente à da ordem
dos dias e das casas mais próximas. haverá sempre
uma corda imaginária a tocar o princípio de tudo.
a lembrar-me o inverno, o rio e as muitas viagens de autocarro que faço
pela manhã enquanto leio os irmãos karamazov. há pessoas que se sentam
e sorriem quando me tocam sem querer e a seguir pedem desculpa
com os olhos. sei também que quando me olhas, a liberdade e
a medida que dás ao amor é completamente diferente à da ordem
dos dias e das casas mais próximas. haverá sempre
uma corda imaginária a tocar o princípio de tudo.
segunda-feira
tenho quase a certeza que existe uma clareira
uma casa térrea onde costumas esconder as mãos e
tentar a eternidade. interromper o interior das coisas e chamar-lhe destino
é sempre mais fácil do que inventar cartazes a anunciar o que se multiplica
do lado de fora. há um determinado alvoroço que poucos vêem quando
chegas e o mês que passou será sempre uma imitação mediana
dos teus olhos. agora há apenas a influência do vidro dentro da noite.
tenho quase a certeza que tu também sabes disto e da dificuldade de chegar
aos sítios que não estão assinalados nos mapas.
uma casa térrea onde costumas esconder as mãos e
tentar a eternidade. interromper o interior das coisas e chamar-lhe destino
é sempre mais fácil do que inventar cartazes a anunciar o que se multiplica
do lado de fora. há um determinado alvoroço que poucos vêem quando
chegas e o mês que passou será sempre uma imitação mediana
dos teus olhos. agora há apenas a influência do vidro dentro da noite.
tenho quase a certeza que tu também sabes disto e da dificuldade de chegar
aos sítios que não estão assinalados nos mapas.
sexta-feira

o homem pediu-lhe baixinho para que ela não morresse
para que espreitasse os dois vasos que ele lhe tivera falado
ainda na terça-feira passada, agora ali na janela, próximos,
um ao lado do outro. a mulher sorriu-lhe, lembrou-se
do que lhe acontecia às mãos e aos dedos quando indicavam
o trajecto de uma rua ou à água que caía dos telhados
nos meses de chuva. havia pessoas nos cafés que não falavam
umas com as outras e lembrou-se disso também, da palavra
helicóptero que sempre tivera muita dificuldade em pronunciar,
da idade em que as despedidas não eram longas e era só
a linha dos olhos e a insistência de um novo olhar na direcção das coisas.
fotografia de susana miguel
quarta-feira
poderia lhe ter dito que as coisas rápidas acontecem
todos os dias, falar-lhe um pouco da teoria dos conjuntos
vazios, do trânsito a entrar pela noite e da transformação
de um corpo com a humidade do rio e o calor de alguns
insectos, no entanto não sei ainda assim viver tão pouco
em verdade que facilmente as palavras começariam,
se as tivesse dito, a percorrer aeroportos e as muitas casas
que estão acima do vento e dos metais que confundimos.
depois teríamos medo das colinas e das mãos que apertam
os dedos, da ilusão dos lugares tristes e tudo seria feito de menos
respiração e haveria um largo cinzento na assimetria
da noite ou um pedaço de amor a incendiar a tua cidade.
todos os dias, falar-lhe um pouco da teoria dos conjuntos
vazios, do trânsito a entrar pela noite e da transformação
de um corpo com a humidade do rio e o calor de alguns
insectos, no entanto não sei ainda assim viver tão pouco
em verdade que facilmente as palavras começariam,
se as tivesse dito, a percorrer aeroportos e as muitas casas
que estão acima do vento e dos metais que confundimos.
depois teríamos medo das colinas e das mãos que apertam
os dedos, da ilusão dos lugares tristes e tudo seria feito de menos
respiração e haveria um largo cinzento na assimetria
da noite ou um pedaço de amor a incendiar a tua cidade.
segunda-feira
algures onde as pessoas se encontram por acaso
e pensam que talvez esteja ali a possibilidade de um amor
novo, não existe senão a miséria e a hipótese de nos tornarmos
criminosos. nesses lugares parece tudo tão fácil de esconder
e até há a boa vontade muitíssimo mais
dócil e a confiança do corpo noutro corpo e chegam-nos
mais duas bebidas sem gelo para sabermos que a casa
é ali perto, que já esteve mais distante a sombra da noite e
que o químico e a sua clareza hão-de esgotar-se pela manhã
bem cedo, quando o despertador tocar e ouvirmos alguém
descer as escadas, quando nos levantarmos a confirmar
o ruído do rádio e as chaves na porta.
e pensam que talvez esteja ali a possibilidade de um amor
novo, não existe senão a miséria e a hipótese de nos tornarmos
criminosos. nesses lugares parece tudo tão fácil de esconder
e até há a boa vontade muitíssimo mais
dócil e a confiança do corpo noutro corpo e chegam-nos
mais duas bebidas sem gelo para sabermos que a casa
é ali perto, que já esteve mais distante a sombra da noite e
que o químico e a sua clareza hão-de esgotar-se pela manhã
bem cedo, quando o despertador tocar e ouvirmos alguém
descer as escadas, quando nos levantarmos a confirmar
o ruído do rádio e as chaves na porta.
quarta-feira
ela deixou de beber café e de escrever cartas
de amor. pareciam-lhe maiores as salas de espera
dos centros de saúde e a imagem das estradas
e das aldeias revelavam também longas linhas rectas que
se poderiam prolongar até à meia noite dos dias seguintes
se não fechasse os olhos. esta ideia tornar-se-ia suficiente,
soube-o anos mais tarde, para que ela conseguisse falar
um pouco mais sobre os jornais que lera
nos primeiros meses de inverno telhas caíram
na rua da atalaia, não causando feridos e é verdade, já me esquecia
de vos dizer, quando ela chegava ao seu quarto de 9 m2, alugado
num 1ºandar ali mesmo em santos, a primeira coisa que fazia
depois de se masturbar e de pensar vezes sem conta
na insignificância de alguns lugares e do seu acto de desamor
era acender um cigarro e reler as cartas que um dia ele lhe enviara
sem medo de lhe reconhecer uma idade diferente no rosto.
de amor. pareciam-lhe maiores as salas de espera
dos centros de saúde e a imagem das estradas
e das aldeias revelavam também longas linhas rectas que
se poderiam prolongar até à meia noite dos dias seguintes
se não fechasse os olhos. esta ideia tornar-se-ia suficiente,
soube-o anos mais tarde, para que ela conseguisse falar
um pouco mais sobre os jornais que lera
nos primeiros meses de inverno telhas caíram
na rua da atalaia, não causando feridos e é verdade, já me esquecia
de vos dizer, quando ela chegava ao seu quarto de 9 m2, alugado
num 1ºandar ali mesmo em santos, a primeira coisa que fazia
depois de se masturbar e de pensar vezes sem conta
na insignificância de alguns lugares e do seu acto de desamor
era acender um cigarro e reler as cartas que um dia ele lhe enviara
sem medo de lhe reconhecer uma idade diferente no rosto.
sexta-feira
consigo imaginar-te a conduzir pela marginal, a ti e à velocidade
das árvores e das casas paradas por onde passas. é ilusão minha
ver-te naquela paragem de autocarro, mas hoje juro que te ouvi
a pedir um bilhete e vi a tua cara de desaprovação pelo 1,60€
que terias de pagar quando, que injustiça, era menos de
meio quilómetro e sairias logo dali a 3 minutos. foi confuso
e aconteceu tudo muito rápido como todas as coisas confusas
e imperceptíveis que dizemos ou pensamos
quando temos encontros inesperados.
das árvores e das casas paradas por onde passas. é ilusão minha
ver-te naquela paragem de autocarro, mas hoje juro que te ouvi
a pedir um bilhete e vi a tua cara de desaprovação pelo 1,60€
que terias de pagar quando, que injustiça, era menos de
meio quilómetro e sairias logo dali a 3 minutos. foi confuso
e aconteceu tudo muito rápido como todas as coisas confusas
e imperceptíveis que dizemos ou pensamos
quando temos encontros inesperados.
não deixes de recorrer ao meu corpo mesmo sendo apenas
um corpo que gostas de tocar. dou-te vontade e a avenida
24 de julho está vazia de gente séria e incapaz
de se apaixonar. o nosso tempo é curto e um dia
acabarei por morrer numa rua qualquer cheia
de esperma e de pessoas que me lamentavam
por ser uma mulher triste e vulgar. jamais terei uma data
marcada para casamento, conheço demasiado a força
dos maxilares e isso impede-me de ver o que se passa
à minha volta. reparo nas constelações porque acredito
que há um tempo que desaparece quando lhes entrego
os meus olhos. eles não sabem disso e apressam-se
a experimentar os meus ossos como se fosse um dever
ejacular e achar graça àquele instante. depois de tudo
alguns ainda ajeitam o cabelo e perguntam-me se tenho
onde dormir. talvez exista uma fragilidade no homem
capaz de transformar tudo o que se move a pouca luz ou
talvez seja a pouca luz a causa dessa fragilidade. nesta cidade
quase nunca cai granizo nos telhados e eu gostaria muito
de cantar como a billie holliday, não sei qual a razão,
mas sempre que chega mais um cliente penso nisto.
um corpo que gostas de tocar. dou-te vontade e a avenida
24 de julho está vazia de gente séria e incapaz
de se apaixonar. o nosso tempo é curto e um dia
acabarei por morrer numa rua qualquer cheia
de esperma e de pessoas que me lamentavam
por ser uma mulher triste e vulgar. jamais terei uma data
marcada para casamento, conheço demasiado a força
dos maxilares e isso impede-me de ver o que se passa
à minha volta. reparo nas constelações porque acredito
que há um tempo que desaparece quando lhes entrego
os meus olhos. eles não sabem disso e apressam-se
a experimentar os meus ossos como se fosse um dever
ejacular e achar graça àquele instante. depois de tudo
alguns ainda ajeitam o cabelo e perguntam-me se tenho
onde dormir. talvez exista uma fragilidade no homem
capaz de transformar tudo o que se move a pouca luz ou
talvez seja a pouca luz a causa dessa fragilidade. nesta cidade
quase nunca cai granizo nos telhados e eu gostaria muito
de cantar como a billie holliday, não sei qual a razão,
mas sempre que chega mais um cliente penso nisto.
quinta-feira
parece-nos que há sempre algo que não conseguimos
dizer aos outros. é sempre pouco e repetido
fazer de conta que olhamos e que não há apenas
um silêncio e o deserto a acompanhar o céu onde
criamos coisas lá dentro para depois as fingirmos. entre tanto
e aquilo que não dizemos existem os continentes e os livros de bolso
depois queremos cuspi-los antes de ficarmos cegos
a contornar praças e ouvir os pombos. quase que não existem
fontes, os quiosques não vendem todas as marcas de tabaco e
talvez este seja um grande motivo, e válido, para não querermos
ficar à espera de nos vermos morrer.
dizer aos outros. é sempre pouco e repetido
fazer de conta que olhamos e que não há apenas
um silêncio e o deserto a acompanhar o céu onde
criamos coisas lá dentro para depois as fingirmos. entre tanto
e aquilo que não dizemos existem os continentes e os livros de bolso
depois queremos cuspi-los antes de ficarmos cegos
a contornar praças e ouvir os pombos. quase que não existem
fontes, os quiosques não vendem todas as marcas de tabaco e
talvez este seja um grande motivo, e válido, para não querermos
ficar à espera de nos vermos morrer.
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