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| a névoa nunca é tão doce como quando te debruças ao vento - disseste um dia. |
sexta-feira
um pouco antes de subires ao palco, ouviu-se ou 1, 2, 3, 4, 5 e é agora.
domingo
por um instante, pensei que lá estivesses
o movimento da luz e das datas inteiras. entre elas
as mãos abertas e o antónimo delas mesmas, às vezes
sobre a mesa até pareciam verdadeiras. pensara muito nisto
e no lume quente do inverno a assinalar o ponto
mais seguro na casa. pensara muito nisto e nas pessoas
que se sentam nos passeios e inventam palavras e alugam quartos
na cidade. depois lembrou-se das putas e do sabor
das pastilhas e do algodão doce na boca, da eternidade
do homem e da maravilha de tudo parecer assim
maior quando se termina uma frase com um para
sempre, meu amor. ela pensara muito nisto e
na terra. disse-me uma vez que a terra e o corpo
eram dissolúveis num tempo comum a todos e que era só isso
que importava que não queria explicar-se que era já noite
que tinha ainda que caminhar muito até chegar
ao outro lado da rua.
toalha de mesa
não peço que regresses, que fiques.
sentemo-nos apenas no cimo do que vês.
quero ser apenas a mulher carvão
um peixe carvão, talvez um coração carvão
desenhado a lápis, no teu caderno.
também eu sorria
sorrias. sabe tão bem a água fresca no rosto e eu lembro-me
(ainda) da luz no pouco espaço da casa e depois de mais tarde repetir
sabe tão bem a água fresca no rosto, tinhas razão e agora vê
a película de água que se estende no espelho.
de chávena na mão, no café de sempre
perguntei-lhe se gostava de amoras
do chão onde se calculam os passos
das palavras demoradas nos passeios do tempo.
perguntei-lhe pela paz
pelo sorriso dos que não dizem.
tivesse ainda tempo e perguntar-lhe ia se ainda namora com o rui
se comprou casa em sete rios, se ainda adormece a ler
se a sua mãe é viva e se recorda o cheiro dos queques da dona rita,
do nome da filha da dona são.
tivesse ainda tempo e perguntar-lhe-ia pela vanda,
se ainda anoitecem pessoas, por aquele bairro.
a água fria muito tempo no corpo
na largura dos lagos.
as luzes tornar-se-ão ácidas
será o cheiro da acetona que dilui
a entrar primeiro, depois alguém
lembrarás a renda na caixa de ferro
o fundo vazio do alguidar
um dia deixarás de ter um coração completo
no escuro da cave.
disseste, em modo de segredo, ao meu ouvido
sobre a planície em sol poente.
terça-feira
funeral às duas da tarde

da helena que morreu fala-se pouco.
dizem que havia um homem que a amara
que o seu coração tivera sido enterrado lá longe
numa montanha. dizem que ela chorara muito lá longe
que falara de uma vida inteira escrita num muro
num muro alto num muro alto e escuro. mais alto
do que escuro mas o quanto baste para não se verem
as árvores. da helena que morreu e deste inverno
tem-se falado pouco. dizem que há a noite e o café
e a música que tudo torna diferente e possível.
da helena dizem que inventou o amor dentro de uma casa e
que mais tarde lhe deitou o fogo. que o seu coração ia
cinzento quando o enterraram.
fotografia de b.berenika.
segunda-feira
poderás então entrar e não passar pela porta
não se veem os olhos porque os perderam quando chegaram
ela cantava a tarefa árdua do músculo
agora andas com os pés na terra disseram e
até sorriram um pouco quando lhes falei se fecharmos os olhos é
mais fácil de reconhecer os caminhos que nos trazem a casa. a minha mãe
pedia socorro, eu ouvia-lhe o canto e os pés na calçada a afastar o tempo à força
a força dos braços nas tarefas habituais o tremor de um cansaço
o gesto de quem não tem luz só indiferença e ninguém.
a tia lurdes sei que nunca tivera habilidades na terra e
o que lhe vinha ao coração era o que teimava em celebrar
como a força da vida. ambas se escolhiam na tarefa do amor
a minha mãe entrava-lhe para dentro do coração
organizava-lhe a desobediência dos espaços e cantava
e aquele era o lugar de tudo e assim a distância
a que ficavam da morte era por momentos inesperada.
assim se enganavam na solidão. e eu também que as escutava
à espera de um sinal talvez semelhante aos teus joelhos
ao contorno dos teus joelhos quando os unes com ternura, meu amor
de algo foragido que aparecesse e me levasse, algo que só nós
soubéssemos. talvez um pedaço de papel dobrado em quatro e nele
uma outra constelação, um número de telefone, uma mancha de café.
quarta-feira
ainda há tempo para bebermos umas caipirinhas
domingo
quarto escuro
metade de um século a lançar algarismos para dentro dos ossos.
são agora inúteis as lâmpadas no teu corpo.
imagem retirada da net.
sexta-feira
de repente, uma outra coisa qualquer
seria este o nosso código: subir a montanha
mais alta (eu também) e se lá chegássemos seria o beijo
a única metáfora a acontecer-nos nesse dia.
fotografia de b.berenika.
ainda a chuva, a cair fria do outro lado
poderia ainda dizer-lhe que nunca consegui esquecer
a morte das suas mãos as mãos no limite da mesa e ainda a chuva
a cair fria do outro lado. escrevo outra vez sobre as suas mãos
e a morte e esta distância que nos afasta o coração das margens
e depois de uma outra morte que não consigo explicar porque se confunde
com a água e com o coração dos pássaros
com a água que existe no coração dos pássaros
com tudo o que existe dentro do coração dos pássaros.
não consegui dizer-lhe uma morte diferente da sua
nas minhas mãos. não conheço a morte que as outras mãos têm e
é por isso que me é tão difícil amá-las.
rascunho#1
das mãos de em contra o frio a arredondar o vento.
dos olhos que estremecem a arredondar no frio.
fotografia de erwin brevis.
mais um bocadinho à janela
chegar ao cimo da rua fico mais um bocadinho à janela e,
às vezes, confundo-a um pouco com o verde das árvores quando
atravessa o jardim. sempre à mesma hora, sempre à mesma hora
e eu a vê-la passar e a limpar os olhos e as manhãs que lá existem.
queria tanto dizer-te que aqui as casas entram para dentro dos corpos
e que se conheci o teu umbigo não foi por acaso que as noites ficaram
mais claras. agora, há mães que dormem e chove menos e os telhados estão
mais limpos neste domingo. chamar-me-ias louco se eu te dissesse
que todos os dias morrem mães e há ainda aquelas que não dormem e
que afirmam que o céu é uma construção sólida de blocos cinzentos.
um mundo cheio de lados contrários ao nosso, um bairro e eu
a ver-te ao longe e ao teu caminho e ao teu cabelo, enormes.
segunda-feira
monólogo
respira respira inspira e abranda inspira e abranda
tem calma sussurra apenas apenas
não julgues o horizonte não o podes
tocar assim com a mão de todos os dias.
não grites conseguirás entrar para dentro
da estrada e não dizer. não digas
mas corre corre corre não pares de correr
podes chorar, agora, que ninguém te vê.
acima do rio
tão fechados. era inimaginável dentro deles
os detalhes todos de uma varanda, o meio-dia
e o que depois de tantos anos viríamos a descobrir
no remetente de uma carta, no pó de uma estrela
acima do rio. o que não existia parecia tão pouco
quando cruzávamos os dedos das mãos e ficávamos
ali sentados a observar os autocarros que paravam
na rotunda e a ver a água que caía das janelas.
ao certo, só havia a parede
de mármore, quase sempre bem limpa. mesmo
por baixo havia um lugar pequenino e escuro com
duas portas desalinhadas, difíceis de fechar. era ali
que estava a caixa, guardada, religiosamente, a caixa
de bolachas: as campechanas que a avó aurora nos ofereceu
naquele natal não recordo agora o ano
ao certo. lembro-me que não sorri quando
fui receber os tios à porta, nem à prima lúcia que
com a boca ainda lambuzada de iogurte e açúcar perguntava
à mãe se a deixava ir brincar
um bocadinho. eu queria que viesses
depressa e convencesses o cão a não ladrar
de cada vez que eu passava com os meus
brinquedos em frente do tanque da tua
mãe. ao certo, só havia a parede e o estendal
as molas enfraquecidas pela chuva e eu gostava
do frio das tuas mãos.
domingo
o sangue de alguém que morre de amor, do sangue de outro
alguém que morre por amor. seriam precisos muitos mortos, muitos
homens a afastar-se da noite e a tentar inventá-la de forma diferente,
a caminho de casa. se assim fosse, daqui a pouco tempo teríamos a luz toda
dentro de uma caixa e os nossos olhos seriam só um líquido destilado dentro de um copo
na extremidade de uma mesa. alguém que me esclareça, que se este for azul
eu não morrerei no dia de hoje, terei ainda tempo para escrever
uma carta a minha mãe. dois minutos chegariam para lhe dizer
que o copo estava a meio e que o ingeri enquanto escolhia a posição
mais confortável no sofá e que iria ali ficar, não para sempre, mas até alguém
se lembrar de tocar à campainha ou simplesmente de mandar três pedrinhas
à janela e constatar que não respondo. depois será rápido até me visitarem
no início de novembro, quando os eléctricos estiverem acumulados de pessoas
e só existirem carteiristas. alguém que me esclareça; que se este líquido for incolor
basta-me morrer a abraçá-lo cá dentro. não vejo nenhum mérito em morrer
de amor e assim de qualquer maneira, mas por amor reinvento alguns gestos e pedaços de história.
nesse dia seremos os dois uma fracção de um tempo anterior
duas estrelas pontiagudas que se destroçam no céu.
sábado
no balcão da leitaria
das mãos do pai da marta
lembro-me que transpiravam debaixo de água e
depois escureciam quando já nada havia a levantar da mesa.
eu pensava que podia escrever nelas, inventar-lhes um segredo
uma hipótese que não fosse só a aflição das nossas mãos e
ter de esfregá-las muito, uma de em contra a outra.
lembro-as pousadas no balcão da leitaria
na pouca tarefa de lhe passar um pano húmido, de vez em quando.
nunca o disse, mas soube que lhe fora merecido encontrar
o fim à noite, para depois se precipitar sobre ela, sem importância.
sexta-feira
enquanto não vens
digo-lhes que a terra é redonda na parede do quarto,
que trago amoras nos bolsos sempre que fecho os olhos
que atrás das casas as árvores descansam e fingem o sol.
esqueço os canteiros e as luzes da cidade. falo-lhes da construção
da tua boca quando tens sede, do amor alumínio que arde
nos pulmões. repito a palavra: redonda. às vezes,
à tua porta, espero a manhã cercada de chuva,
o que resta do fruto, enquanto não vens.
segunda-feira
naquela expressão de haver qualquer coisa interminável no céu,
toda a lisura do pano lhe entrara para dentro.
ela olhava e havia a força dos pés em biquinho e de um mundo térreo
que adivinhara sempre igual e a dissolver-se no ar.
com aquela expressão de haver qualquer coisa interminável no céu,
a mãe da sónia procurava as molas nas algibeiras, o riso
das mulheres e dos homens que conhecera. sabia pouco
sobre pássaros, mas quando os via acercarem-se do parapeito
a respiração elevava-se muito e com ela os braços e a voz.
a voz parecia um alvoroço a prolongar o fim de tudo.
quinta-feira
terça-feira
pareceu-nos que o mundo deixou de ser circular depois de falsear o trompete
e tu o dizeres sei muito pouco de ti e gostava de te beijar.
eu pensava nas manhãs genuinamente redondas e
no trinta que fez ontem quatro décadas e mais dois anos e do momento
em que o vi a lançar pedacinhos de pão à porta, este sábado de manhã,
depois de pousar o casaco no ombro e de contar à helena a desgraça de não
ter conhecido nenhuma mulher que o alumiasse no escuro da casa.
há maneiras diferentes de encolher os ombros e gostavas
do meu trompete e do som grave, um pouco fechado e rouco que dele vinha
e dizias-mo. o novo mundo estava ali e decidimos beber café e dizer
que as árvores estavam em flor e que talvez o mundo não acabasse.
os prédios são altos e há toalhas estendidas e mulheres que ainda passam
as tardes à janela. são feias e tristes as casas e eu discordei e
dizer-te que a minha alegria é pouca fez com que sorrisses e falasses
um pouco do mercado mesmo atrás de nós, desse lugar onde enlameámos
as botas pela primeira vez são bonitas e rasas, quase que tocamos o chão.
segunda-feira
chegar ao cimo da rua fico mais um bocadinho à janela e,
às vezes, confundo-a um pouco com o verde das árvores quando
atravessa o jardim. sempre à mesma hora, sempre à mesma hora
e eu a vê-la passar e a limpar os olhos e as manhãs que lá existem.
queria tanto dizer-te que aqui as casas entram para dentro dos corpos
e que se conheci o teu umbigo não foi por acaso que as noites ficaram
mais claras. agora, há mães que dormem e chove menos e os telhados estão
mais limpos neste domingo. chamar-me-ias louco se eu te dissesse
que todos os dias morrem mães e há ainda aquelas que não dormem e
que afirmam que o céu é uma construção sólida de blocos cinzentos.
um mundo cheio de lados contrários ao nosso, um bairro e eu
a ver-te ao longe e ao teu caminho e ao teu cabelo, enormes.
domingo
totalmente nas minhas mãos. há um pó invisível presente em tudo
o que observo (e também nos rios). nunca quisemos falar sobre isto
porque é triste falar desse bocadinho em nós que conhecemos melhor.
a palavra tempo nada diz sobre os lugares ainda por preencher no autocarro.
faltam poucos minutos para as onze e meia da noite e as horas apenas
e um pouco mais do que escutamos ao fim dos dias. o fornecedor
de bolos do café dali da frente leva escondido nas mãos e no corpo
todo (quem sabe) um bocadinho desse pó invísivel e entrou no táxi e
agora é dezembro e disse que quando era míudo fora sempre dezembro.
ainda agora vejo as luzinhas azuis a piscar entre os dedos respondeu o outro
e disse 4 euros, meu amigo e a vida é assim (pausa longa).
qualquer coisa (quem sabe).
fotografia de Alice Lemarim.
quarta-feira
logo, 2 minutinhos a seguir, perto de ti e agarrava-te o braço depois
de atravessar o túnel e de dizer olá ao joão do sapateiro que vendia
pensos rápidos e também colecções de isqueiros enquanto as moedas cresciam
nos bolsos e mais um mês e vou-me embora para a minha casa da terra.
o meu abraço, a minha voz e só depois o teu sorriso a reconhecê-la
e às árvores todas também e ao outono que cabia dentro delas nessa tarde.
eu sei, agora não é novembro, mas há quem ainda fale dele e da tristeza que é
acontecer-nos a morte numa cidade que não a nossa. uma vez disseram-te
que era necessário esquecer tudo, que não havia mal nisso e era verdade
os teus olhos ganhavam a forma mais líquida do mundo
e da cegueira, dizias-me: poderíamos dar-lhe o nome de saudade.
domingo
esteve sempre lá, ao fundo e sentada, do outro lado da linha
à espera de alguém que viesse e lhe falasse um pouco
do absurdo que é o de deixar prontamente tudo arrumado e limpo
e ainda o percorrer da água no copo e a água nos dedos
e depois. e depois? (aponto) apenas o que perdemos, como se houvesse
um coração de água, uma circunferência no lugar certo, antes de partir.
quarta-feira
que eu sou feliz. chama-me e diz vera, o táxi já chegou e agora
quando cá voltas para nos abraçarmos muito e vermos as coisas
como elas são. não podemos falar das coisas como elas são,
da determinação que às vezes surge em procurar as escadas e desce-las a todas
e ficarmos ali a desentender o silêncio e a planear guardá-lo para que
ninguém o saiba. e nem sempre o que nos diz e o que dizemos depois aos outros é a verdade. há a ideia de uma dúvida e para isso servem os nossos braços
e a segurança de que são frágeis, os teus e os meus, para separar a morte
da força da corda quando não sabemos o fim que escolher.
encontramo-nos agora numa idade comum a quase todos onde nos demoramos
a alinhar frases e a procurar palavras que se mostrem
mais inteligíveis num destes dias. há-de fazer sentido assim,
umas ao lado das outras, o vento e a luz no candeeiro, concordámos.
domingo
em que sei a largura dos ossos e a flexibilidade do arco.
às vezes, confundo a sombra dos objectos, a paisagem e os espelhos.
depois tento escrever sobre o pó e os símbolos que conheço e que não conheço.
há caligrafias internas e isso o que é (pergunto) e a noite e a metáfora e eu
apenas sei de vidros, da espuma nos talheres de que já te falei em 2007
e pouco mais. há dias em que respiro muito pouco, sabes.
é apenas o músculo que separa o tempo
e entre as coisas está, às vezes, a alegria de tudo.
quinta-feira
ele disse-lhe que ela ainda conseguiria cantar e que o segredo está na forma
das mãos dela e é branco. é branco como será sempre branco o branco
frio da neve. ela disse-lhe que é abstracto e doce, que nas costas das mãos
o leite é branco e quente quando desce, quente sempre quente
a entrar nos poros, quente como o peso da roupa quando a retiramos
do nosso corpo ou ainda húmida da máquina ou quando a colocamos à pressa,
seca e do avesso, no alguidar, com água a ferver por baixo e
um pouco de detergente. um pouco da noite do outro lado e um armazém.
chove e é como uma rosa esta artéria que move o ar e não se vê e
eu não compreendo, não sei porque te digo isto agora, meu amor.
terça-feira
...98,99,100.
sexta-feira
para os outros. ficávamos surpreendidas com o número de eléctricos
terça-feira
da velocidade que existe nas coisas que se perdem por entre os líquidos,
do cair da espuma para dentro de um corpo, da perfeição do mar e a
de um estilhaço? apenas um estilhaço e a diferença entre as mãos,
de quem diz e quem não disse que há fórmulas mágicas que se recriam
no coração, é quase nenhuma. diz-me, o que sabes sobre a transparência
de alguns tecidos, dos lutos que se somam junto aos peixes?
sexta-feira
sobre os livros que esquecemos e de algumas pessoas que morreram
nos últimos anos. talvez ainda lembrar o sentido dos comboios e
a insignificância extraordinária que damos aos homens que obedecem às leis,
aos carteiros de bicicleta e mala a tiracolo de pele. eles não prescindem
dos factos e todas as cartas são entregues numa matemática quase perfeita
na convicção de que um esconderijo poderá demorar anos até
se tornar habitável por outros homens. podemos conversar sobre tudo
o que não é segredo. não poderemos voltar a falar de amor.
terça-feira
e alameda, e nem por um minuto deixava de contar as laçadas
as voltas da linha na agulha. e assim passam os anos e esquecemos
as pequenas combustões, a razão de termos dado um início
ou de querermos encontrar os fins e a irregularidade nas coisas.
havia sempre o engenho de um gesto novo assim que parava
a meio, a confirmar a proximidade do seu destino ou quando
no contrário da peça, e verificava-a com atenção, examinava
o esforço: - dez minutos e tivesse eu ainda tempo. a tristeza
a exceder o número de vezes prevista e mais uma vez a reconstrução
de um mundo e há quem diga que sim que as noites são alteráveis
quando descem com habilidade ao coração das mulheres.
quarta-feira
a maioria seriam as mulheres que conhecem todos os incêndios,
a força dos braços e o espaço que ninguém compreende vazio e só
porque não há luz no avesso dos olhos quando elas perguntam
a direcção dos aviões e aquilo que fica depois no céu. e ainda assim,
muitas mais apareceriam com o propósito de respirar as estrelas todas
da cidade, pediriam também que lhes explicassem o dia seguinte,
a proximidade a que estão das coisas que inventam.
terça-feira
a lembrar-me o inverno, o rio e as muitas viagens de autocarro que faço
pela manhã enquanto leio os irmãos karamazov. há pessoas que se sentam
e sorriem quando me tocam sem querer e a seguir pedem desculpa
com os olhos. sei também que quando me olhas, a liberdade e
a medida que dás ao amor é completamente diferente à da ordem
dos dias e das casas mais próximas. haverá sempre
uma corda imaginária a tocar o princípio de tudo.
segunda-feira
uma casa térrea onde costumas esconder as mãos e
tentar a eternidade. interromper o interior das coisas e chamar-lhe destino
é sempre mais fácil do que inventar cartazes a anunciar o que se multiplica
do lado de fora. há um determinado alvoroço que poucos vêem quando
chegas e o mês que passou será sempre uma imitação mediana
dos teus olhos. agora há apenas a influência do vidro dentro da noite.
tenho quase a certeza que tu também sabes disto e da dificuldade de chegar
aos sítios que não estão assinalados nos mapas.
sexta-feira

o homem pediu-lhe baixinho para que ela não morresse
para que espreitasse os dois vasos que ele lhe tivera falado
ainda na terça-feira passada, agora ali na janela, próximos,
um ao lado do outro. a mulher sorriu-lhe, lembrou-se
do que lhe acontecia às mãos e aos dedos quando indicavam
o trajecto de uma rua ou à água que caía dos telhados
nos meses de chuva. havia pessoas nos cafés que não falavam
umas com as outras e lembrou-se disso também, da palavra
helicóptero que sempre tivera muita dificuldade em pronunciar,
da idade em que as despedidas não eram longas e era só
a linha dos olhos e a insistência de um novo olhar na direcção das coisas.
fotografia de susana miguel
quarta-feira
todos os dias, falar-lhe um pouco da teoria dos conjuntos
vazios, do trânsito a entrar pela noite e da transformação
de um corpo com a humidade do rio e o calor de alguns
insectos, no entanto não sei ainda assim viver tão pouco
em verdade que facilmente as palavras começariam,
se as tivesse dito, a percorrer aeroportos e as muitas casas
que estão acima do vento e dos metais que confundimos.
depois teríamos medo das colinas e das mãos que apertam
os dedos, da ilusão dos lugares tristes e tudo seria feito de menos
respiração e haveria um largo cinzento na assimetria
da noite ou um pedaço de amor a incendiar a tua cidade.
segunda-feira
e pensam que talvez esteja ali a possibilidade de um amor
novo, não existe senão a miséria e a hipótese de nos tornarmos
criminosos. nesses lugares parece tudo tão fácil de esconder
e até há a boa vontade muitíssimo mais
dócil e a confiança do corpo noutro corpo e chegam-nos
mais duas bebidas sem gelo para sabermos que a casa
é ali perto, que já esteve mais distante a sombra da noite e
que o químico e a sua clareza hão-de esgotar-se pela manhã
bem cedo, quando o despertador tocar e ouvirmos alguém
descer as escadas, quando nos levantarmos a confirmar
o ruído do rádio e as chaves na porta.
quarta-feira
de amor. pareciam-lhe maiores as salas de espera
dos centros de saúde e a imagem das estradas
e das aldeias revelavam também longas linhas rectas que
se poderiam prolongar até à meia noite dos dias seguintes
se não fechasse os olhos. esta ideia tornar-se-ia suficiente,
soube-o anos mais tarde, para que ela conseguisse falar
um pouco mais sobre os jornais que lera
nos primeiros meses de inverno telhas caíram
na rua da atalaia, não causando feridos e é verdade, já me esquecia
de vos dizer, quando ela chegava ao seu quarto de 9 m2, alugado
num 1ºandar ali mesmo em santos, a primeira coisa que fazia
depois de se masturbar e de pensar vezes sem conta
na insignificância de alguns lugares e do seu acto de desamor
era acender um cigarro e reler as cartas que um dia ele lhe enviara
sem medo de lhe reconhecer uma idade diferente no rosto.
sexta-feira
das árvores e das casas paradas por onde passas. é ilusão minha
ver-te naquela paragem de autocarro, mas hoje juro que te ouvi
a pedir um bilhete e vi a tua cara de desaprovação pelo 1,60€
que terias de pagar quando, que injustiça, era menos de
meio quilómetro e sairias logo dali a 3 minutos. foi confuso
e aconteceu tudo muito rápido como todas as coisas confusas
e imperceptíveis que dizemos ou pensamos
quando temos encontros inesperados.
um corpo que gostas de tocar. dou-te vontade e a avenida
24 de julho está vazia de gente séria e incapaz
de se apaixonar. o nosso tempo é curto e um dia
acabarei por morrer numa rua qualquer cheia
de esperma e de pessoas que me lamentavam
por ser uma mulher triste e vulgar. jamais terei uma data
marcada para casamento, conheço demasiado a força
dos maxilares e isso impede-me de ver o que se passa
à minha volta. reparo nas constelações porque acredito
que há um tempo que desaparece quando lhes entrego
os meus olhos. eles não sabem disso e apressam-se
a experimentar os meus ossos como se fosse um dever
ejacular e achar graça àquele instante. depois de tudo
alguns ainda ajeitam o cabelo e perguntam-me se tenho
onde dormir. talvez exista uma fragilidade no homem
capaz de transformar tudo o que se move a pouca luz ou
talvez seja a pouca luz a causa dessa fragilidade. nesta cidade
quase nunca cai granizo nos telhados e eu gostaria muito
de cantar como a billie holliday, não sei qual a razão,
mas sempre que chega mais um cliente penso nisto.
quinta-feira
dizer aos outros. é sempre pouco e repetido
fazer de conta que olhamos e que não há apenas
um silêncio e o deserto a acompanhar o céu onde
criamos coisas lá dentro para depois as fingirmos. entre tanto
e aquilo que não dizemos existem os continentes e os livros de bolso
depois queremos cuspi-los antes de ficarmos cegos
a contornar praças e ouvir os pombos. quase que não existem
fontes, os quiosques não vendem todas as marcas de tabaco e
talvez este seja um grande motivo, e válido, para não querermos
ficar à espera de nos vermos morrer.
domingo
SleeplessHands
terça-feira
não sei como guardá-los a todos e explicar-lhes que
envelheço. o meu nome parecia-me mais bonito
quando ele me deixava escrito: o sol das ruas
no calendário. passaram muitas horas e ter assim tão pouco
tempo para encontrar o escuro todo que existe
é quase como marcar o princípio numa escada,
assim forte, com o pé todo apoiado e depois muito direito
a insistir outra vez e com o outro e agora quase
a recuar, parece-nos mas não. é a distância e ganham impulso
os dois juntos e ainda o punho, o peso ou insistência
se preferirem assim dizer. é difícil,
o pé fica lá por segundos a assinalar o degrau inteiro
e eu digo que só falta meia hora e que é preciso avisar-te
é preciso avisar-te que a rapidez ou uma qualquer
quarta-feira é capaz de fazer parar o meu coração.
quarta-feira
tão fechados. era inimaginável dentro deles
os detalhes todos de uma varanda, o meio-dia
e o que depois de tantos anos viríamos a descobrir
no remetente de uma carta, no pó de uma estrela
acima do rio. o que não existia parecia tão pouco
quando cruzávamos os dedos das mãos e ficávamos
ali sentados a observar os autocarros que paravam
na rotunda e a ver a água que caía das janelas.
sábado
que não têm um lugar fixo nos móveis. a moldura é pequena
e mesmo assim, nela a imagem, a única a lembrar-nos
o apartamento e alguns objectos que aconteceram
naquele dia. às vezes, as plantas eram colocadas no chão
da varanda, perto da sombra causada pela roupa do estendal
ou ao lado da estante de pinho, no quadrado da sala.
temos de dar um lugar certo às coisas, um lugar onde
possam morrer para depois ficarem aqui, presas aos olhos
como uma luz sépia a confundir-nos o corpo todo e
a parte mais funda da terra. não havia mais nada
para dizer e tu inventavas as horas da tarde e o bairro
da tua rua era uma extensão de pessoas a esquecer
promessas e a olhar ao cimo, as duas torres da igreja.
naquela manhã pouco importaram as conversas. ela deixara
o quarto meticulosamente arrumado e a sopa ainda
ao lume. ninguém diria que teria sido possível vê-la
morrer assim, de pulsos cortados.
sexta-feira
a bater com força uma vez mais
antes de se fechar completamente. eu ouvi
e não tenho dúvidas que perguntaram as horas
às senhoras da farmácia, eram oito
e vinte e já tinham ali passado outras
pessoas que desciam dos autocarros. ela ia
carregada com os sacos, pelo menos três
e levava a mala e a maldita alça descaída
a prender-lhe o braço direito disseram
as vizinhas: que desgraça a da irene e os bombeiros
que demoraram tanto tempo a retirar o corpo
do prédio e a esfregar o sangue das escadas.
segunda-feira
tocavas três vezes lá em baixo e dizias para
eu descer e que não encostasse as mãos
à parede do poço do elevador. eu ainda gritava
da janela: está bem, mas bem que podias ser tu
a subir. eu abraçava-te, pensava que ias
morrer na manhã seguinte, no sábado ou
numa outra noite qualquer quando partisses
em direcção a outro caminho, talvez lisboa. eu não sabia
como contar-te que quando tocavas três vezes,
a possibilidade de ser maior a distância
entre nós, o teu quintal e as coisas mortas
que lá existiam, tudo isso diminuía. às vezes,
eu ouvia a dona guida a queixar-se: um dia, menina,
ainda cai por essa escada. a menina
era eu e um pouco de terra presa à sola
das botas, eu, e os meus braços de oito anos
a sair com pressa do prédio.
terça-feira
sexta-feira
quarta-feira
terça-feira
desse papel branco. é só para apontar
uma ideia: nas ruas as pessoas tropeçam menos
quando nos encontramos. as janelas
lá ao longe parecem agora tão pequeninas.
lembro-me de quando parámos a rir
respirámos por uns segundos sem nos olharmos
nos olhos e voltámos a rir e a redobrar o riso
até que demos as mãos, vimos a estrada.
uma ideia dessas, daquelas que demoram
a crescer nas sebentas e depois adoecem rápido
naquele dia pensei que estaríamos sós:
o barco sem ninguém, só o coração e o peso
dos sacos. depois os pés quase a tocar o rio.
mais tarde o eléctrico e o teu sorriso
ainda a arder nos meus olhos, a caminho de casa.
segunda-feira
nas mãos. o que quiseres mostrar dizias, parece vento e
é moldável com os lábios, quiçá o mar ou um pedaço de papel
para somarmos a distância entre dois corações,os meses
que faltam no meu corpo. porque faltam sempre meses aos corpos
e as coisas mais tristes adoecem a seu tempo. escrevo
mais uma vez as coisas mais tristes, lembro-as.à entrada
das vogais abertas, redondas, estão pequenas estruturas
feitas de laços e torrões de terra.
sábado
sexta-feira
de mármore, quase sempre bem limpa. mesmo
por baixo havia um lugar pequenino e escuro com
duas portas desalinhadas, difíceis de fechar. era ali
que estava a caixa, guardada, religiosamente, a caixa
de bolachas: as campechanas que a avó aurora nos ofereceu
naquele natal não recordo agora o ano
ao certo. lembro-me que não sorri quando
fui receber os tios à porta, nem à prima lúcia que
com a boca ainda lambuzada de iogurte e açúcar perguntava
à mãe se a deixava ir brincar
um bocadinho. eu queria que viesses
depressa e convencesses o cão a não ladrar
de cada vez que eu passava com os meus
brinquedos em frente do tanque da tua
mãe. ao certo, só havia a parede e o estendal
as molas enfraquecidas pela chuva e eu gostava
do frio das tuas mãos.
segunda-feira
a lata estava ali mesmo
à espera que o pedro corresse
um bocadinho e ganhasse coragem
para a chutar. não é preciso muita
força – gritava a susana – que observava
a agitação dos pés e dava umas dicas – mais
à direita, vai, vai, é agora, eh pá chuta na bola – dizia
o daniel do outro lado da rua. eu agora
lembro-o e não sei por quanto tempo
ficaremos assim parados. no rosto dele parecia
que as ruas não custavam a subir
mesmo quando dobrava e comprimia à pressa
a sebenta no bolso de trás das calças e
adiantava o passo, a respiração. embaciava-se o vidro
na janela do menino do 2.º esquerdo, mesmo ali
a olhar para nós e a contar o tempo que demoraria
o pai da teresa a acomodar a bagagem dentro
do automóvel.
domingo
a apertar os botões todos da camisa. ele
queixava-se de uma página, a 57, agora relida
com urgência, dos pequenos detalhes do rosto
se lá tivessemos ficado a atirar objectos
para o fundo das arcas, se tivessemos compreendido
a textura nos olhos e a notícia. naquela casa
a mulher era mais rápida a sacudir as sombras
e a bater com força o tapete da rua
à janela. eu se os fechava e tinha medo
era porque imaginava o desequilíbrio de um prego
na parede. as avós encostadas e em fila
muito cansadas e à espera
pediam a deus o último suspiro
que ele viesse e as cegasse.
quinta-feira
quarta-feira
com a função de um pequeno electrodoméstico.
de cada vez que digo: a terra fica mais escura ou
de uma taça qualquer aparece e logo o comparo a uma lanterna
de aço, ao movimento dos ombros quando subimos a rua. ainda há botões
dentro dos frascos, ferrugem e humidade nas linhas, cascas
no forro, na metade cinzenta do teu casaco. ainda há pouco
dizia: os estilhaços parecem redondos, quando
queria ter dito: o reflexo nas árvores
terça-feira

chegamos a casa e trocamos pétalas por ossos.
as mãos ficam transparentes. ainda
trazemos a água dos peixes
na ponta dos dedos, destroços
de uma árvore na boca. é possível ver alguns
cadáveres do outro lado. o mesmo movimento
de sempre, digo: abre a porta, devagar.
sabemos pouco do animal morto
da sua cabeça e pescoço húmido a desaparecer
na terra. do intervalo da nuvem a queimar
a matéria dos objectos.
Fotografia de Velislava.
domingo
sábado

há uma mulher de luto em cada escada
de um prédio. elas sabem da existência
dos braços. dentro dos pulmões conhecem
a contrariedade das coisas que se fragmentam.
se olhares o chão, verás a luz que falta? dizem
algumas que as sombras tremem no casulo dos alvéolos.
que são as vizinhas a queimar na pele o que não se vê
quando regressam a casa dos filhos.
o silêncio na bissectriz de um arco? dizem algumas
que se pudessem ficar ali a distinguir o pó
da corda mudariam o instante
de um astro. elas sabem da existência
dos braços, dentro parece-lhes que tudo morre
com urgência.
Fotografia de Velislava.
quinta-feira
quarta-feira

às vezes sento-me a olhar o chão
a ver as paredes azuis, a contar o tempo
a lembrar o sangue nos telhados e as ruas onde nos cruzamos.
fico apenas a enrolar um fio do meu cabelo à volta
do dedo mindinho e a pensar, um triângulo
na direcção do lugar onde devo morrer.
os traços imitam as estações.
fotografia de Gundega Dege.
sexta-feira
1,2 e 3.
quarta-feira
que tinha visto um coração branco
a crescer num vaso azul e que no fundo
do vaso havia buraquinhos redondos
que o deixavam respirar sem nós sabermos.
ela repetiu que não estava a mentir
que era verdade, o ar entrava mesmo.
depois disto, não me quis contar mais nada
foi buscar a caixinha dos lápis
e sem que eu a ouvisse respirar começou
por medir o espaço entre as flores e parecia-me
que delas recolhia a luz ao fim da tarde
quando de vez em quando era a sua mão que subia
a afastar a franjinha do cabelo.
já está! tu não acreditas, pois não? mas é verdade
as flores é que não estavam lá
fui eu que as desenhei
para o coração não ficar triste.
domingo
geometria de um mundo pequenino
de uma panela de alumínio. depois chamavas-me: filha
e ajeitavas a querer afundá-lo muito no útero
o teu vestido de pano. a água aguardava a velocidade da fervura
eu pousava as canecas de barro no tabuleiro, imaginava a geometria
de um mundo pequenino, calculava alto a tabuada do sete
e às vezes eu sabia que tu choravas e as nossas mãos
pareciam quase circulares quando víamos os meses a desaparecer na janela.
bebíamos o chá e dizias filha a querer muito os teus olhos estão cansados.
podemos esperar, mamã? e sentávamo-nos ainda com o quente
doce na boca a tentar entender a nudez das árvores.
depois à noite levantávamos as pernas ao alto e era uma casa de riso
quando debaixo dos lençóis nos descobríamos
duas meninas a crescer no tempo
e nos víamos adormecer.
quinta-feira
quarta-feira

do amor sei as mães que cantam as coisas
a parte ardida. o fundo, uma gaveta e eu. e eu
a pensar o contorno do óleo no escuro
dos dedos. diz-me, sabes a rosa que transpira? lembro-a
quando ainda fechamos os olhos, os fingimos morrer para
depois nos amarmos muito. do amor, eu ouço portas
a gritar a espessura da noite, a madeira frágil
a encher a casa. um plátano de seda

tocas o sangue que escorre, dentro
do meu corpo. a pele sem têmpora, a pele
muito quente, e ainda os lugares onde
nos sabemos. existe uma rua estreita
quando as tuas mãos apagam a luz, quando
as afasto no escuro, e as defendo.
e há a dor que permite, a dor do ferro. é
quente, o muro dos teus lábios
quando se demora e o transforma.
por dentro há um outro líquido quando me olhas
as tuas mãos parecem um segredo quando me tocam.
Fotografia de Berenika.
quinta-feira

há uma verdade-triste que coloco em todas as coisas.
quando digo todas as coisas, digo também a parte
mais iluminada do teu rosto. as vezes
em que apertas com força os lábios
uma e outra vez. e ainda outra
quando alguém diz o vermelho
fresco, um ponto e um limão
a simetria, o vento que fica
em todos os lugares, o túnel comprido
onde o medo é maior se lá entrarmos
se soltarmos as mãos; algo
que nos escapa quando rezamos
que acontece quando caímos.
Fotografia de Berenika.
quarta-feira

os pássaros parecem querer morrer à tua porta.
digo-lhes que a terra é redonda na parede do quarto, que trago
as árvores dormem e fingem o sol quando em segredo as penso
falo-lhes da construção da tua boca quando tens sede
redonda. às vezes, à tua porta, aguardo as manhãs
enquanto não vens.
Fotografia de berenika.

os pés não tocavam o chão e eu gostava de ali ficar.
ao lado da fruteira e do cheiro fresco das maçãs
perto do cesto de costura
por cima do mármore branco onde aprendi o amor
pelas tuas mãos. uma agulha subia
a mesma agulha descia e era só ar que respirava
devagar. respirava os restos do tempo, o inverno a subir as paredes.
devagar. enquanto as portas morriam.
porque me ensinas a não chorar? houve um dia em que fingimos
a arrumação dos copos no vidro do armário.
em que foram nossos os dedos
nossos. e perdoaram de mãos dadas.
em que o meu sangue foi teu por dentro da noite.
os pés não tocavam o chão. existias tu
e eu
dançava com os braços alegres
era um ramo que crescia
sempre que cantavas.
Fotografia de Berenika.
terça-feira

sei que é tua a voz que ouço. que são meus
os pés frios mergulhados no fogo. penso
o amor e uma cadeira, a textura fina do pó
um bago de arroz. o que não sei explicar quando o açúcar se dissolve e se lembra alguém.
ouço-te os passos
a água que corre antes de apagares a última luz
a água que bebes antes de adormecer
o pousar do copo
e a mesa ao teu lado.
Fotografia de Berenika.
quarta-feira

a folha em cima da mesa.
escrevo que trazes na humidade da boca
o respirar branco de todas as praças
que há um espaço enorme entre estas duas mãos
que as mulheres são belas quando tremem e o dizem.
onde posso gritar o teu nome? pergunto
o modo lento e definido de tudo encontrar.
lembro-te agora. o vermelho vivo e a claridade das janelas
as ruas que recuam quando as olho.
o barro, o vaso de barro e a terra
a respirar dentro dele.
Fotografia de Berenika.

as coisas tristes são mais pesadas
e o seu peso cresce quando as lembramos.
dizem-me a mesa vazia
o lago que se move e se verte quando não estás.
penso a cicatriz no vidro
o vidro baço e os teus pés ainda molhados pela chuva.
porque não esperas?
são lisas as tuas mãos no meu pescoço
e o lugar é sempre o mesmo
quando nos lembramos.
Fotografia de berenika.
sexta-feira

A varanda aberta. o vestido é macio quando o toco.
vou aqui ficar. vou morrer-me nesta casa
toda ela feita de sangue enquanto a noite não vem.
poderia dizer-te. mas é o frio que me escreve nas mãos
Queres que te lembre, meu amor?
não respondo. penso
o sangue. a febre
aberta. o silêncio
as casas
e agora a distância dentro delas.
Fotografia de Berenika.
terça-feira

gostava tanto que ficasses. que me falasses dos barcos
que ainda passam por nós. das cadeiras
onde nos sentámos tantas vezes e possíveis fomos
no cimento da boca.
tenho a força do pulso. esta outra forma de ser
frágil sem que o saibas.
onde guardas as coisas tristes?
e as mãos
ainda transpiram debaixo de água?
Fotografia de Berenika.
segunda-feira

desta vez, quando abrires a porta quero olhar-te
bem dentro dos olhos. mais triste
como quem sabe o incerto e o reconhece. ao longe.
faz tanta falta o vento na janela. o frio.
o coração no lugar da terra. lembra-me
és feliz, meu amor? às vezes acredito
que o mar se estende
e que é em ti que nasce
o fim de tudo.
Fotografia de Berenika.
quinta-feira

a ver-te. a chávena caída no soalho.
deixas ficar a mancha, como se fosse
o derrame de uma laranja
o ar que cresce cada vez mais alto.
a luz lava-te a sombra. as cores
ficam mais lisas no lado aberto do teu sorriso.
são altíssimas as tardes
quando as contas à superfície
e pensas completos os dedos
por cima do sol.
Fotografia de Berenika.
quarta-feira

deixada há muito
na distância do que podia.talvez.
espere. peça a árvore que abre em silêncio a noite.
morrerei do lado de fora? dizes
que não. que a luz
parece fogo
mas não queima as mãos quando deitadas e as
mergulhamos no centro pulmonar.
e há sempre a música. parece chorar. ouves?
não precisas pedir. acaba o teu café.
e se o fogo entrar? é por mim
que ficas?
Fotografia de Berenika.
terça-feira
segunda-feira

As mãos dormem sentadas
ao relento da casa.
os dedos cansados recolhem escombros
luz nocturna
ao relento das árvores.
não adormeças esta noite.
A lua transpira tranquilidade.
mães esperando o seu rebento
de olhos em pranto
como se todas as coisas fossem criação
quando alguém chora.
mãos suspiram
reconstroem gestos
e o fogo surge
emergente.
não adormeças esta noite.
Quando no silêncio da árvores
a mãe chora
a intimidade das raízes em sufoco
surge poética
sentada
nos recantos da casa.
Fotografia de Lilya Corneli.

São poucas as vezes
em que as luzes se vêem acesas.
Tudo parece estar morto.
Nas mãos abertas
dorme a divindade de uma flor. frágil
contorna o gesto de uma boca indizível
e as palavras demoradas
respiram o espanto aos poetas.
Os campos devolvem aos olhos
a frescura das paisagens
para que a frescura dos olhos
devolva as paisagens
aos campos.
Os campos serão sempre frescos
enquanto existirem olhos.
Ao olhar a paisagem
fixo-a
para que nunca a possa esquecer.
Tudo parece estar morto.
As vozes que cantam
quando por dentro as procuro e não as encontro
tentam acender as luzes.
Distantes. as palavras
em segredo
pousadas na pequenez das coisas simples
escutam o espanto dos poetas.
O gesto da flor
na divindade da boca
devolve aos olhos a paisagem dos campos.
encanto de dois lábios
no perfil da casa.
Fotografia de Ewa Brzoznska.









